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12 de fevereiro de 2014

Os Cinco Dragões

        - Você tem certeza que é aqui?
- Certeza, certeza, não... mas segundo os mapas – e a bússola – é por aqui, sim.
Estavam naquele caminho o dia todo. Os pés tinham bolhas e calos, as botas forçavam-lhes os tornozelos mirrados e as meias raspavam na perna.
- Puta que pariu, eu tô ficando com medo.
Herr riu. Não era alemão, tampouco uma mulher. Mas tinha aquele apelido desde que os meninos o encontraram caído na calçada da venda numa manhã quente de janeiro, o rosto coberto de lama e a pele cheia de feridas. Desde então, viraram algo como melhores amigos, embora houvesse desconfiança da população de Montanhosa que eles fossem... homossexuais.
- A gente não vai se perder – disse Herr, a voz determinada de sempre. – Relaxa, fica frio. Apanha a lanterna e ilumina o caminho, bora.



Bardo tirou uma lanterna amarela da mochila de tecido verde-musgo e deixou a manta iluminada repousar sobre os galhos partidos, as folhas quebradiças e secas, a névoa espessa e o sussurro da fauna. Bardo ganhara o apelido aos cinco anos – era excelente em contar histórias de terror para os amiguinhos na creche da pequena Montanhosa, no interior daquilo que os pais chamavam de Brasil, mas que eles, àquela época minúsculos, eram incapazes de compreender. Um dia, rezava a lenda, Bardo avistara cinco pontos sobrevoando os céus. Fizera um escarcéu. Conspirou-se na Câmara sobre todos os tipos de assombrações – de espíritos da família Cortela a extraterrestres. No fim das contas, o Bardo virou O Bardo Mentiroso.
Herr tomou a lanterna das mãos do amigo e avançou vinte metros na mata densa. A temperatura caía vertiginosamente. Daqui a pouco serão nossos joelhos, pensou Bardo, pé ante pé crepitando nas folhas, crec, crec, crec.

29 de janeiro de 2014

Noite sem Fim - PARTE 1


Aquela tarde havia sido cansativa. O dia todo havia sido cansativo, para falar a verdade, mas a tarde havia sido especialmente corrida; coisa comum nos finais de semana mas era algo ao qual Kevin ainda tentava se habituar. Tem sido sempre assim desde que começara a trabalhar no mercado do seu tio a pouco mais de um mês. Haviam apenas quatro ''grandes mercados''por assim dizer, naquela pacata cidade em que vivia, e o mercado do seu tio Fillip era um dos maiores e mais conhecidos pela população local.



O Bolichão do velho Fill, era como chamavam os mais íntimos - os velhotes, clientes a quase cinco décadas. Fillip não mantia muitos empregados trabalhando consigo; eram apenas cinco, que se revezavam entre o caixa, açougue, organização dos produtos, assistência aos clientes, etc. O quinto empregado era o próprio Kevin, e sua tarefa era chegar lá as seis e trinta da manhã para verificar se estava tudo em ordem, e então preparar-se para abrir o estabelecimento as sete horas, junto de seu tio. Trabalhava o dia inteiro, mas somente sexta e sábado, pois eram dias em que o mercado precisava de mais um funcionário para dar conta da clientela, e então domingo a tarde, reunia-se com o restante do pessoal para fazer a faxina do local e a reposição dos estoques; tudo sob a supervisão de Fillip. Trabalhar justamente nos finais de semana podia não ser algo agradável, mas pelo menos o tio era generoso na hora do pagamento. S$ 400,00 dólares mensais para trabalhar três vezes por semana? Era muito bom.

19 de janeiro de 2014

Contos do Medo #1 - O Velho

Começando nova série do Medo B, OS CONTOS DO MEDO!!!

Contos enviados pelos leitores, aprovados, serão lidos no canal...











Gostou? Comente! Envie seu conto para contosdomedo@gmail.com

Bons Pesadelos...

11 de janeiro de 2014

26 de dezembro de 2013

Kelith Yosprib

Assim que ela chegou em casa todos sabíamos o que tinha acontecido. Não foi preciso nenhuma palavra ser dita ou nenhum sinal ser feito. Todos nós sabíamos do resultado da ida de Paula ao médico. Ela estava lá, sentada em uma cadeira, aos prantos. Minha família inteira estava lá, ainda com o papel do resultado nas mãos, sem saber o que dizer para alegrá-la.


Eu me lembro de quando éramos crianças e brincávamos de várias coisas, mas o que mais alegrava a minha irmã era as suas bonecas. Cada uma tinha um nome e ela cuidava de todas com muito carinho. Esse era o seu sonho desde sempre, ser mãe. Paula já tinha lido vários livros sobre maternidade, gostava daqueles filmes sobre famílias felizes... Então veio a notícia aterradora de que ela não poderia engravidar.

19 de dezembro de 2013

Azar em Família

Eram cinco da manhã. Os primeiros raios de sol já saiam das frestas da veneziana. O despertador toca, e Sandra afasta o braço da filha de seu corpo e levanta da cama para mais um cansativo dia de trabalho. De pé ao lado da cama, lança um olhar caloroso para Milena. É a cara do pai...



Sandra se arruma rápido e vai preparar o café da manhã da filha que, ao acordar um pouco mais tarde, deveria ir à escola. Essa era a sua rotina desde que aquilo aconteceu.

5 de dezembro de 2013

Brincando de evocar espíritos

Me chamo Bernardo, e o relato que vou compartilhar com vocês aconteceu entre a madrugada e manhã do dia 21 de fevereiro de 2004. Era inicio de ano letivo e estava entrando na 8ª série do colegial. Lembro muito bem da data, pois era o dia do meu aniversário e queria comemora-lo em grande estilo. Só que nunca imaginei que as coisas fossem sair completamente do controle.



 Sempre fui muito popular na escola, tinha muitos amigos e todos queriam andar comigo, estava longe de ser o melhor aluno da classe, mas tirava notas suficientemente boas para não reprovar, fazia questão de me dar bem com todos os funcionários do colégio, talvez como uma maneira de manipula-los e evitar punições severas a deslizes que cometia aqui e acolá, como “matar” aula por exemplo.

 No começo “matava” aulas por pura preguiça, mentia para meus pais que não estava me sentindo bem e ficava em casa dormindo até tarde. Depois de um tempo percebi que faltar aula poderia ser bastante divertido, principalmente depois que conheci Talita. Talita era de origem Argentina e tinha se mudado para o Brasil ainda pequena. A verdade é que tínhamos uma química tão forte que ela se tornou minha melhor amiga da noite pro dia. Minha mãe a detestava, a olhava como se tivesse olhando para uma barata. O fato dela ter reprovado o último ano do colegial várias vezes, a falta de comprometimento com os estudos e o modo como se vestia também ajudou no julgamento.

22 de novembro de 2013

Madrugada de Domingo

Antes de mais nada, preciso dizer que este conto não é inventado. O que irei lhes contar aqui é uma história verídica que aconteceu comigo e meus amigos. O motivo que me levou a escrever isto foi o clima no qual estávamos e uma história um tanto assustadora contada por um deles - justamente o mais cagão. Não leia isto esperando uma ficção sobrenatural ou coisa assim, pois o conteúdo abaixo é apenas o relato de uma madrugada de domingo entre amigos, ok? Caso ainda esteja lendo isto, sinta-se a vontade e espero que goste.



Já era madrugada, algo em torno de 1:30 de domingo e estávamos entediados. Eu e mais três amigos acabamos reunidos no apartamento do nosso amigo Kleinu pra jogar video game e encomendar algumas pizzas; esta era a programação noturna. Poucas horas antes nós havíamos saído com algumas gurias. A noite foi mesmo boa, saiu tudo como planejado, mas a madrugada já estava se tornando realmente cansativa. As pizzas estavam sendo digeridas a muito tempo, e jogar GTA V não estava mais nos mantendo entretidos. Decidimos então sair do apartamento e dar umas voltas de carro pela cidade.

8 de novembro de 2013

Estalos

Eu ouvia estalos.
Às vezes altos, às vezes baixos. Estalos, ruídos, barulhos incômodos. Sempre pensei que fossem os móveis. Eles eram velhos, rangiam quando eu me movia. Rangiam quando eu não me movia também. Sempre rangiam, na verdade. Velharias. Coisas inúteis, antigas. Serviam somente para assustar.
Mas os estalos estavam lá, mesmo quando os móveis eram novos.
Às vezes, quando eu me deitava sob as cobertas, eu os ouvia. Ouvia mais, ouvia bastante. Quando as luzes estão apagadas, nossa audição se aprimora. É algo que o corpo faz por si só. Ouvindo melhor, ouvimos também o que não queremos ouvir. Como os estalos. Como o vento na janela. Como a dança dos galhos do lado de fora.
Como os passos.



Deitado, de olhos abertos no escuro (que, de tão escuro, chegava a ser pior do que ter os olhos fechados), eu os ouvia. Eles andavam no andar de baixo, na cozinha, na sala. Andavam nos banheiros, na copa. Subiam as escadas. Essa era a pior parte. Era horrível imaginá-los, pensar que estavam próximos. Eu sempre pensei que os estalos vinham dos móveis. Essa era a melhor opção. Assim, eu ficava mais tranquilo, mais calmo. Mas os móveis não andam. Os passos não eram dos móveis. Os passos eram deles.
E eles subiam as escadas, sem pressa. Subiam e subiam, degrau por degrau, e eu os escutava. Fechava os olhos, puxava as cobertas, contava carneiros, vacas e ornitorrincos, mas não dormia de modo algum. Eles subiam as escadas, vagarosos. A lentidão era o que mais me doía. Cada passo devagar, cada passo sereno, era de romper o coração. Sentia meu sangue gelar, subir à garganta quente, voltar às pernas gélido.
Aí as luzes se acendiam.

Isso também não era coisa dos móveis. Eles acendiam as luzes, uma a uma. Seus passos estavam mais próximos. Eles estavam ali, do outro lado da porta. Eu tentava ficar quieto; estava paralisado. Tinha medo deles. Medo do que quer que fossem. Medo de que me mandassem embora. Medo de que me fizessem mal. Queria gritar, chamar minha mãe, mas sei que ela não viria. Nem meu pai. Ele zombaria de mim. Diria que era um medo bobo. Diria que eu era criança, que era idiota. Então ficava ali, quieto, tremendo de medo.
Ouvia suas chaves na maçaneta, e este era o meu limite.
Eu sempre saltava da cama nessa hora, corria para debaixo dela e me escondia. Eles não podiam me ver ali, ninguém poderia. Eu via a porta se abrir, a luz de fora entrar. Eles não acendiam a luz do quarto, por sorte. Entravam, quatro pés pesados, mas eu sabia que havia outros dois suspensos nos braços de um deles. Nunca havia os visto; sequer sabia se eram humanos, se eram monstros. Não gostaria de descobrir.
Então eu ouvia a voz de um deles.

—Durma com os anjos, filhinho.

E eu sabia, nessa hora, que havia alguém na minha cama. Então eu chorava, chorava sem fazer barulho nenhum. Chorava debaixo da minha própria cama. Chorava no escuro, sozinho, e ficava ali, no chão frio, até que o medo me deixasse dormir.
Às vezes, eu adormecia rápido.
Mas, às vezes, eu ouvia estalos, e começava tudo outra vez.


Conto escrito por Rodolfo Santos, de Taubaté - SP. O conto faz parte de um livreto com 13 contos de terror, chamado 'Lágrimas e Pesadelos'.


Sabine d'Alincourt

5 de novembro de 2013

DIA Z PARTE 3



Ao acordar uma forte luz penetrou sua íris, fazendo sua pupila se contrair e sua cabeça doer. Jéssica imediatamente fechou os olhos, colocando a mão a frente do rosto. Sua mente estava confusa e seus olhos doíam com aquela claridade toda; era como se nunca os tivesse usado. Tornou a abri-los, desta vez devagar, tentando filtrar a luz por entre os dedos da mão.

- Onde estou?

Ela sentia-se tonta, as coisas pareciam girar e dançar a sua volta. Apoiando-se na parede, ela primeiramente ficou de joelhos, então foi levantando aos poucos, a medida que as coisas ao redor começavam a ficar paradas e menos confusas. Assim que conseguiu observar com clareza o lugar, Jéssica foi tomada por pavor, sua respiração acelerou e ela cambaleou para trás, quase caindo ao esbarrar em uma mesinha. Haviam três corpos a sua frente, sendo um deles o de William. Seus óculos estavam quebrados e sangue escorria de sua boca, juntando-se a enorme poça vermelha formada abaixo de sua cabeça.

''Meu Deus, Lucas!''



Assim que lembrou-se, começou a procurar e chamar o amigo, mas ele não estava em lugar algum. Jéssica olhou para todos os lados e então deu-se conta de que seus dedos estavam fechados sobre alguma coisa. Assustou-se ao ver que segurava uma pistola, deixando-a cair no chão; então se abaixou e a pegou novamente.

- Lucas! - chamou de novo, mas a unica resposta que recebia era do suave som das máquinas de refrigeração espalhadas pela sala.

28 de outubro de 2013

O Grande Baile

Quando acordei, continuava sentindo-me exausto. Eu estava dentro de um carro, sentado no carona, e devo ter adormecido escorado na janela, mas a verdade é que nem me lembro. Nos meus pés havia quase uma dúzia de garrafas de Heineken vazias... ah sim, claro, agora eu me lembro. No volante estava uma amiga minha, melhor amiga na verdade, e tem sido a mesma coisa a 17 anos. Fico feliz por isso. Conosco carregávamos algumas mochilas e sacolas, apenas o que tínhamos, se for parar pra pensar. Não posso dizer que era uma viagem com rumo certo, pois não era. Nunca foi. Nós dois apenas pegávamos a estrada e o destino fazia o resto, e o melhor de tudo é que ambos ficávamos satisfeitos. O destino nunca havia sido cruel com nós dois. Para começar, ele havia nos unido. Ainda lembro como se fosse hoje: a 17 anos atrás, quando meus olhos encontraram aquela menininha loira entrando na sala de aula - ''Esta é a nova coleguinha de vocês, digam oi pra Laura.'' - disse a professora. Infelizmente eu nunca consegui dar oi pra ela, durante metade do ano, eu apenas a observava. Um dia ela percebeu que eu estava a olhando e sorriu; fiquei vermelho e não sabia onde me esconder; ela então se aproximou e me deu oi. Perguntou se eu emprestava meus lápis, e ficou encantada com meus desenhos. Aproveitei aquele momento para fazer amizade, e acabamos nos tornando inseparáveis. Agora eu estava com 25 anos, e ela completaria a mesma idade em poucas semanas.



[leiamais]

Olhei pelo vidro - estava embaçado por causa do sereno - esfreguei a manga da minha camiseta nele e vi que já estava anoitecendo. O céu estava bem nublado, com algumas nuvens negras no horizonte. Não demorou muito, e indícios de chuva começaram a aparecer, com direito a trovoadas e relâmpagos.

Laura, visivelmente cansada e um pouco irritada, disse que o carro estava ficando sem gasolina. Por sorte, estávamos passando por um destes postos de estrada, então ela pegou o pequeno desvio e estacionou ali. O local não era dos mais convidativos, parecia até abandonado. Demorou alguns minutos, até que um senhor de idade, com um sorriso simpático estampado no rosto chegou até o vidro do carro. Laura pediu pra completar o tanque, mas ele franziu a testa, fez uma expressão negativa, e nos disse que a gasolina estava em falta. Conversamos alguns minutos e ao perceber nossa situação, ele disse que poderíamos ficar hospedados em uma ''casa hotel'' que havia mais pra frente. Não era longe. A gente iria poder se abrigar da chuva, descansar, tomar um banho - sim, um banho! - e no dia seguinte, sem falta, ele levaria a gasolina até lá, sem cobrar nenhuma taxa extra. Agradecemos e seguimos em frente até a tal hospedagem. Quando a gente chegou, ficamos nos perguntando sobre o preço da diária, porque o lugar parecia ser chique. Não era uma simples casa hotel como o senhor do posto havia dado a entender; o lugar era gigantesco, com janelas e vidraças grandes, e umas decorações que pareciam no mínimo caras. Trocamos olhares indecisos, mas no fim, acabamos descendo do carro. Subi os degraus e bati na enorme porta dupla, minha amiga logo atrás. Instantes depois, uma mulher de vestido negro, e cabelos longos da mesma cor do vestido apareceu para nos receber. Ela abriu um sorriso e convidou-nos para entrar. La fora a chuva já começava a cair.

Depois das apresentações, Cynthia, como se chamava a bela mulher, disse que iria nos hospedar por conta da casa até a manhã seguinte. Ela disse que eramos os primeiros hóspedes em semanas e ela já começava a sentir falta de companhia. ''Quem sabe a presença de vocês traga sorte e mais hóspedes apareçam!'' - disse ela sorrindo. Seu sorriso era mesmo muito simpático, e seu decote era interessante. Mesmo assim aquilo pareceu estranho aos meus ouvidos, porém, estávamos sem muitas opções no momento, e Laura parecia bem a vontade. Ela adorava arte e estava fascinada pela mobília, pintura e tudo mais. Até o fim da noite, ela deve ter feito umas duzentas perguntas sobre tudo.

Nós dois fomos tratados da melhor forma possível. Logo já havíamos tomado banho - que banho! - e estávamos sentados a mesa, esperando pela janta. A janta, a propósito, foi muito agradável e estava absolutamente deliciosa. Nossa melhor refeição em meses! Ah, acho que não mencionei as toalhas de banho; simplesmente a coisa mais macia que eu já havia pego nas mãos.

Cynthia jantou conosco e nós três conversamos durante horas. Como já estava ficando um pouco tarde, Cynthia dispensou os únicos dois empregados que estavam ali presentes, e nos levou pessoalmente até nosso quarto, dizendo que poderíamos ficar a vontade, pois estávamos em casa. Sua voz era realmente suave e gentil. Demorou um pouco, mas Laura começou a ficar enciumada ao perceber que eu estava simpatizando demais, mas nada falou, apenas lançou um olhar que eu já conhecia bem. Enfim. Em seguida Cynthia nos deu boa noite e se foi. Deitamos na cama, nos beijamos um pouco, mas ela não estava disposta para fazer sexo, então virou-se de lado e adormeceu. Resolvi não insistir e virei-me pro outro lado. Fechei os olhos e fiquei assim por vários minutos, mas não consegui dormir, por mais aconchegante que fosse aquela cama, só peguei no sono uma hora depois, mais ou menos.

 Fui acordado no meio da madrugada, por barulhos, barulhos estranhos que pareciam vir lá de baixo. Olhei a hora na meu celular, eram 3:30 da manhã. Levantei-me lentamente e, na ponta dos pés, me aproximei da porta. Aquilo era música de piano? Dei uma olhada para Laura, que parecia ter morrido, de tão profundo que era seu sono.

Abri a porta. Estava tudo escuro no corredor. Fui seguindo o som e desci as escadas, chegando no hall do hotel. A música agora estava mais alta. Era uma linda melodia de piano. Eu também podia ouvir barulho de rizadas e gente conversando, oque era muito estranho, pois segundo Cynthia, nós eramos os únicos hóspedes.

O som parecia vir da porta dupla vermelha no fundo do hall. Me aproximei, girei a maçaneta e a abri. Acabei me deparando com um baile de máscaras. Todos usavam a mesma, que era tipo um corvo com penas bem escuras saindo pelos lados. Sinistro, mas de certa forma era elegante. Quando me dei conta, eu estava usando um smoking e uma mulher mascarada, de cabelos e vestido negros se aproximou de mim, colocou uma daquelas máscaras no meu rosto e me beijou. Eu nem consegui resistir. - ''Cynthia?'' - perguntei. Não houve resposta, mas era ela sim, eu tinha certeza. Em seguida ela veio ao meu lado, repousou as mãos sobre meu ombro e peito, e sussurrou algo em meu ouvido, algo que, a princípio fez meu coração acelerar e me deixou extremamente assustado, mas... mas logo não pareceu mais uma má ideia. Na verdade parecia uma ótima ideia. Cynthia me beijou novamente e, enquanto o fazia, fechou minha mão sobre alguma coisa. Ela sorriu pra mim e eu sorri de volta. Aquela mulher era mesmo incrível.

Sai pela mesma porta que entrei, subi as escadas e voltei pro quarto. Laura continuava dormindo profundamente. Me aproximei da cama segurando aquela enorme faca. Acabei fazendo um barulho que a acordou. Droga. Ela virou-se e me olhou, seus olhos verdes demonstraram pavor. Ela era linda mesmo quando estava com medo, e isso era fascinante. ''Desculpe amor, eu não queria acorda-la.'' - eu disse, então matei-a.

Instantes depois estávamos no salão, dançando. Laura usava aquela mesma máscara e um vestido vermelho. Um colar de brilhantes pendia de seu pescoço. Sentado no bar, enxerguei aquele senhor, dono do posto; ele me viu e ergueu a taça pra mim, e eu o cumprimentei fazendo um gesto com a cabeça.

As luzes diminuíram e uma musica lenta começou a tocar. Estavam todos dançando agora. Cynthia passou por nós dois e sorriu. Ela estava sem máscara e, agora no escuro, seus olhos tinham um estranho brilho prateado.


Conto escrito por Otávio Augusto Hoeser.
Mande seu conto para contosdomedo@gmail.com.

Sabine d'Alincourt 

17 de outubro de 2013

DIA Z PARTE 2

Já era noite quando cheguei na casa dela; sua rua estava solitária e escura. Um caminhão dos bombeiros havia batido em um poste e o derrubado junto de outro. A penumbra era penetrada de segundo em segundo, apenas pelo piscar das sirenes e de um terceiro poste que não havia tombado por completo e, entre um estalido e outro, lutava para manter-se aceso. Aquele caminhão havia feito um estrago enorme; um braço pendia da janela do motorista e o formato de corpos podiam ser notados aqui e ali; alguns deles em baixo dos enormes pneus. Havia um cheiro forte de sangue, a rua Groove cheirava a morte. Eu nunca tive tanto medo na minha vida.



O frio na barriga era enorme e aumentava ao ouvir o gemido dos zumbis; gemidos distantes, mas que as vezes pareciam próximos. Deus por favor, que ela esteja viva. Levantei-me de trás da cerca e corri na direção da porta de entrada, mas derrapei os pés e voltei imediatamente assim que percebi sombras que se aproximavam. Pela maneira como se moviam, não havia dúvidas, eram mais deles. Voltei pra onde eu estava abaixando e fiquei esperando, torcendo para que não tivessem me visto. Um grupo de seis zumbis apareceu, sem rumo. Alguns tiros foram disparados em algum lugar perto e seja lá quem o tenha feito, acabou deixando aquele grupo inquieto; dois deles se moviam na minha direção agora. Merda, preciso fazer alguma coisa! Peguei uma pedra, sem saber exatamente o que fazer com ela. Pensei em atira-la para distrai-los, mas não iria adiantar. Droga! Me virei e comecei a fazer a volta na casa, procurando um meio de entrar. Aquelas janelas laterais eram muito altas e estavam fechadas, minha ultima alternativa seria a porta dos fundos.

7 de outubro de 2013

Brincadeira de criança

O garoto colocou a cabeça contra a parede. Ela estava parada logo atrás dele, esperando. Então começou:
- Um, dois, três…
E Ana saiu correndo. Tirou os sapatos para que fosse mais quietinha - não queria deixar nenhum rastro, nenhuma dica de onde iria se esconder.  Fuçou na cozinha. Será que ia caber dentro dos armários? Examinou um instante e decidiu que não. Mesmo se conseguisse se enfiar, as panelas fariam barulho. Derrubou algumas para despistar e voltou à sala. Ele ainda estava no quarenta.



Deslizou com as meias pelo corredor. Tão rápido e discreto! - teve que cobrir a boca, para ter certeza que não ia fazer som algum. O quarto dos pais.. o quarto dos pais!... abriu a porta, mas não teve coragem de entrar. Os dois estavam deitadinhos ali na cama, a TV ligada. Sabia que podia ir e se esconder porque eles não iam a entregar, mas preferiu procurar mais.
Lá da sala, ele gritou sessenta.
O banheiro! Ah não, o banheiro não. Sua irmã estava lá tomando banho antes deles começarem a brincar. O banheiro estava um caos. Sem contar que fedia! Espiou pela fresta da porta, só pra ter certeza, e sim, a menina ainda estava lá, esparramada na banheira, com fones no ouvido, sem mover um músculo sequer. É claro que estava. Dali da porta mesmo Ana conseguia escutar um pouco da música. Saiu correndo, de novo.
Lá da sala, veio um oitenta.
Restava tão pouco tempo... o quarto! O quarto delas. Não queria se enfiar debaixo da cama, era o esconderijo mais óbvio de todos. Nem no armário, que, para começar, estava abarrotado de coisas, mal ia dar para entrar. Atrás da cortina, seus pés ficariam para fora. Noventa e dois... noventa e três. Não dava mais tempo. Ana agarrou as bonecas pelo cabelo e as jogou no chão, empurrou para debaixo da cama e se enfiou no baú enorme. Se contorceu e fechou a tampa, a cabeça entre os joelhos. Sua posição era desconfortável e o ar era abafado, ali. Tentou cobrir o rosto, para evitar de ser escutada.
- Pronta ou não, lá vou eu!
Era muito difícil continuar quietinha. Sua respiração estava forte e as lágrimas ainda corriam o rosto. Tinha que engolir o soluço e camuflar o desespero até o fim da brincadeira. Ele ainda tinha mudado as regras, que amigo mais bonzinho! Ela não ia precisar correr para o pique. Bastava que se mantivesse escondida por um minuto.
Contou mentalmente. Cinquenta e três segundos... cinquenta e quatro. Cinquenta e cinco. Cinquenta e seis. Faltava pouco para que se completasse um minuto e ela não escutava passos nem risadas de crianças. Deixou escapar uma gargalhada desesperada; estava salva.

Cinquenta e nove.


Conto escrito por Carolina Kiss.

Sabine d'Alincourt

DIA Z PARTE 1

Muita gente diz que gostaria que acontecesse um Apocalipse Zumbi - também conhecido como Dia Z ou Day Z - em algum lugar Terra. Falam isso sem medo, sem pensar que podem acabar perdendo sua família, seus amigos, parentes e, também, falam sem a convicção de que as chances de serem sobreviventes em uma situação desta são muito poucas. Olha, confesso que eu também gostaria que de alguma forma, zumbis tomassem conta do mundo. Seria uma experiência dos diabos. Imagina a adrenalina! Aquele clima de apocalipse, com você sobrevivendo sozinho ou com seus amigos. Indo de mercado em mercado, loja em loja, casa em casa. Buscando suprimentos, e tentando desesperadamente proteger sua frágil vida tanto dos zumbis, quando de outros seres humanos igualmente desesperados. Pois é, talvez isso nunca aconteça, mas de qualquer forma eu já vivenciei essa experiência através de um pesadelo. Muitos já devem ter tido pesadelos com zumbis, mas o que eu tive foi diferente, foi inexplicavelmente real. Tão real que eu enxergava tudo com meus próprios olhos, em primeira pessoa. E o final dele foi um tanto... habitual.




Estava entardecendo e o Sol já estava a estreitar seus alaranjados raios entre os prédios e residências. Eu estava saindo de um edifício, segurando uma maleta na mão esquerda e meu celular na mão direita. Assim que o sinal fechou, atravessei a rua e segui adiante, focado em meu celular. Conversava com uma amiga minha através de um bate papo. Ela me contava sobre uma notícia que estava passando na TV no exato momento em que conversávamos. Parece que uma mulher matou o marido a mordidas. Aquilo foi cômico e arrancou-me uma leve risada, até que minha amiga completou dizendo que a mulher e a filha do casal foram baleadas pela polícia, ao tentarem atacar um dos guardas. Que loucura. Respondi ela e continuei andando distraído durante algumas quadras.

2 de outubro de 2013

A Viagem de Metrô.

O ar estava muito mais pesado aquela noite. Eu havia me embebedado como de costume, mas ainda estava sóbrio o suficiente para ter certeza de que havia uma densidade sobrenatural no ar. Sai do meu apartamento pouco depois da meia noite, segurando com firmeza aquela estranha maleta metálica que aparecera do nada na cabeceira do meu quarto a dois dias atrás. Tentar abri-la era inútil, pois não havia fechadura alguma, apenas um bilhete dizendo para eu tomar conta dela, pois ela me daria tudo que eu mais queria - o que era uma besteira, é claro, pois o que eu mais queria era morrer.


No início, cheguei a pensar que algum desgraçado estava fazendo piada comigo. Fazendo piada com meu sofrimento. Mas com o passar dos dias, mais informações iam aparecendo naquela folha já levemente amassada. E no último dia, a mensagem encontrava-se da seguinte maneira:

''Tome conta desta maleta;
Ela é a chave para que você encontre
tudo aquilo que mais deseja.
Pegue o metrô na estação Colline Castle St
exatamente a 1:30h deste sábado.
Estamos te esperando.''

1 de outubro de 2013

O Casarão da Rua Flee.

Era tarde da noite, algo em torno das 3:30 da manhã. A cidade estava fria, silenciosa e o tempo anunciava chuva. Eu e meu amigo estávamos voltando de uma noitada quando tivemos a ideia de entrar no casarão abandonado da rua Flee. O casarão da família Hopkins, que viveu ali durante duas gerações. Não foi preciso pensar muito - já que não estávamos pensando direito devido ao álcool. Decidimos ir.


A rua Flee era praticamente deserta e o único movimento que podia ser visto era o das folhagens e folhas das árvores quando sopradas pelo vento, assim como suas respectivas sombras que dançavam entre os muros. As vezes um ou dois cães também podiam ser avistados perambulando por perto. Chegamos a rua Flee em menos de 10 minutos. O casarão dos Hopkins ocupava um quarteirão inteiro, e as casas vizinhas, menores, estavam todas para alugar. Poucas eram as pessoas que moravam nas redondezas, se é que moravam. Pensando melhor agora, é bem raro ver uma luz acesa, mesmo nas casas habitadas. Os portões de metal do casarão estavam abertos, cobertos por ferrugem, folhagens e trepadeiras que desceram o muro e se enrolaram por entre as grades, forçando-as a permanecer sempre abertas. Entramos com o carro, devagar. Meu amigo ergueu a luz dos faróis; estava muito escuro e conseguíamos ver apenas o que era iluminado por eles. Parecia até que a luz da Lua não conseguia penetrar na residência. Uma fileira de mato e arbustos acompanhavam as laterais da estradinha pela qual o carro seguia - a vegetação reivindicou seu espaço, literalmente.

30 de setembro de 2013

A Viagem



Após um cansativa viagem a negócios, Henry finalmente sentia-se em paz. Foram quatro dias de estresse, correria e apreensão. A firma estava o pressionando, especialmente a respeito do atual projeto. Felizmente tudo havia dado certo e ele agora estava voltando para casa.




Eram quase duas horas da tarde e o ônibus partiria em três minutos, ele precisava se apressar! Subiu a rampa correndo e chegou aos boxes. Uma fileira de ônibus preenchia todos eles, avistou o seu e apressou o passo em sua direção. Ao se aproximar, percebeu que ainda haviam pessoas entrando, isso fez com que pudesse relaxar e livrou-o da sensação de urgência. Colocou-se na fila, e quando chegou sua vez, entregou o bilhete ao motorista e entrou. Carregava consigo apenas uma maleta, na qual havia pouca coisa; apenas o suficiente pros quatro dias em que ficara na cidade. Acomodou-se em sua poltrona, a de número dois(corredor) e ficou aguardando a partida. Quando o motorista entrou e apresentou-se aos passageiros, a poltrona ao seu lado seguia vazia. Henry então aproveitou para ficar mais a vontade. Colocou os fones de ouvido e espalhou-se, ocupando ambas as poltronas. Instantes depois ele sentiu o motor sendo ligado, e o veículo afastando-se em marcha ré. A viagem havia começado.

16 de junho de 2013

O demônio que vive em ti

Naquele momento, me encontrava sozinha em casa, sem nada para fazer além de contemplar, observar e sentir a relativa calma daquela escura noite. De um minuto a outro, me encontrava escrevendo ao máximo do que minha inspiração alcançava, para aliviar um pouco esses momentos, pois o silêncio começava a me perturbar e inquietar. Quanto mais escuro ficava, mais estranha eu sentia.

12 de junho de 2013

Clara e o Monstro de verdade

Nova história do Acervo Maldito... E como vocês já sabem, nas histórias dele vocês tem opção de escutar a história no video, ou ler no texto abaixo...
A escolha de como vai ficar com MEDO é toda sua...










Aqui embaixo o texto completo:

[leiamais]



Era uma quarta-feira ensolarada, o céu estava limpo e os pássaros cantavam no meio da tarde. Aquele dia era perfeito para os alunos de uma pré-escola saírem com sua professora para caminharem e aproveitarem um passeio e conhecerem melhor o bairro onde estudavam.

Os pequeninos se divertiram naquela tarde com sua tutora, conheceram a história de uma nova praça, cantaram algumas canções e de mãos dadas todos juntos, passearam por toda as redondezas do bairro.
No final da tarde tudo havia sido maravilhoso, os pequenos aprenderam coisas novas e se divertiam com isso. Uma pequenina chamada Clara sentia-se um pouco desconfortável, ela precisava ir ao banheiro, estava muito apertada e não podia esperar afinal, qual criança consegue esperar nessas ocasiões?

Ela insistiu muito e não sobrando alternativas a professora disse:

- Está vendo aquele barzinho do outro lado da rua? Vá até lá e use o toalete, eu espero você voltar.
A pequenina atravessou a rua e fez conforme a professora disse. Cheiro de bebida, fumaça de cigarro, homens jogando bilhar, a menininha entrou nesse lugar e pediu o banheiro emprestado.
Cinco minutos, dez minutos... Esse foi o tempo que a menina gastou para voltar junto de sua professora e seus coleguinhas.

Os dias passaram e Clara começou à sentir-se mal, primeiro veio a febre, depois algumas feridas pelo o corpo. Clara tinha uma irmãzinha que era apenas um bebê, sua irmãzinha também começou à ficar doente e apresentava os mesmos sintomas de Clara.

Após uma consulta médica a decepção e a tristeza batiam à porta da família da pequena Clara.
A pobre menina havia sido violentada e quando seus pais perguntaram como isso havia acontecido, ela disse:

- Eu não sei o que foi mamãe, me desculpe, eu não sabia que o homem do bar não podia tocar em mim...

Clara contraiu duas doenças, uma delas é uma espécie de sarna que lhe impede de chegar perto de bebês pelo o fato de ser facilmente transmitida, a outra doença, AIDS!

Essa é apenas uma das muitas irrefutáveis provas de que monstros existem e que sua espécie se chama homo sapiens. Nesse exemplo, só nos resta saber qual dos dois monstros é o pior, a professora irresponsável ou o estuprador maníaco? Cuidado! A desgraça e ruína de sua vida pode não ser causada por um fantasma, nem mesmo por um demônio e sim, por aquele ser humano que acaba de passar por você neste momento!


Bons Pesadelos...

22 de março de 2013

A verdadeira história de Alice no País das Maravilhas



Aviso: esta não é uma história que você vá encontrar pesquisando no Google ou em livros.

A história de Alice é, na realidade, triste. Lembrem-se que os grandes contos de fadas são de outra época, a realidade era diferente e os valores extremamente conservadores. Então, ter uma filha esquizofrênica era considerado uma aberração, um crime. Os pais de Alice decidiram deixa-la em um sanatório, e ela permanecia, na maior parte do tempo, dopada. Quando não estava sob efeito de remédios, era violentada pelos funcionários. A menina tinha apenas 11 anos.


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Cada um dos personagens e objetos da história, tem a ver com um desejo ou experiência de Alice.

O buraco pelo qual ela entra no País das Maravilhas, é, na verdade, uma janela de seu quarto, onde ficou presa durante toda a vida, pela qual ela desejava sair e conhecer o mundo à sua volta.

O coelho branco, para ela, representava o tempo. Aquele tempo que ela desejava que passasse logo, para que um dia ela pudesse sair daquele lugar. O tempo que ela via passar tão rápido, porém tão lento...

O Chapeleiro Maluco, era outro interno, seu melhor amigo. Alguém que deixava sua vida no hospital menos amargurada, com quem criava várias teorias de como seria a vida lá fora. O rapaz, em realidade, sofria de Síndrome Bipolar, por isso a personalidade do Chapeleiro na história, o mostrava ora alegre, ora depressivo, ora calmo, ora irritado.

A Lebre, companheira do Chapeleiro, era a menina que dividia o quarto com ele. Ela sofria de depressão profunda, e todas as vezes que Alice teve contato com ela, encontrou-a num estado de terror e paranoia.


O gato de Cheshire: um dos enfermeiros, em quem Alice confiou, mas acabou por enganá-la e violenta-la. O sorriso do gato, aquele que é tão marcado, era na verdade o sorriso obscuro que seu agressor abria, cada vez que lhe abusava, e a deixava jogada em um canto de sua acomodação, derrotada, triste e ofuscada.

A Rainha de Copas: a diretora do sanatório. Uma mulher má e desprezível, que não sentia sequer um pingo de compaixão para com os enfermos que estavam sob seus cuidados. Era a favor da terapia de choque e da lobotomia, e por diversas vezes ordenava que os funcionários espancassem, sedassem e prendessem em jaulas os enfermos que apresentavam comportamento que não lhe agradavam.

A Rainha Branca: sua mãe, uma mulher nobre e terna, que sofreu na pele o preconceito de ter uma filha doente, tendo que abandonar a menina em um sanatório, e nunca mais voltar a vê-la. As vagas lembranças que Alice possuía, era de momentos com sua mãe, e o motivo dela pensar que o mundo fora dos muros do hospital era um lugar melhor, era saber que a mãe estava lá, em algum lugar, para lhe cuidar.


Os Naipes: enfermeiros do hospital, apenas seguindo ordens o dia inteiro.

A Lagarta Azul: sua terapeuta, aquela que lhe dava as respostas, que lhe explicava o que acontecia e com quem ela conversava.

Tweedledum e Tweedledee: gêmeos siameses órfãos, que também estavam no hospital. Embora não possuíssem nenhum problema mental que justificasse sua internação, a aparência que tinham era assustadora, por isso foram reclusos.

O Rei de Copas: o médico psiquiatra do hospital. Alguém com complexo de inferioridade, que era incapaz de se opor às ordens da diretora.

Os frascos “Coma-me” e “Beba-me”: as drogas que lhe davam. Por serem extremamente fortes, por várias vezes Alice tinha sensações diferentes e alucinações, bem como se tivesse encolhido ou aumentado de tamanho.


Tudo isso foi criado pela menina como se fosse um mundo paralelo. Uma realidade menos dolorosa daquela em que vivia. Ela já não podia suportar aquele local e tudo o que acontecia com ela ali dentro, então resolveu usar de sua imaginação infantil para amenizar a dor e o sofrimento. A irmã mais velha de Alice, é na verdade uma enfermeira do hospital, a quem a pequena era muito apegada. A enfermeira tinha um diário e nele anotava todas as histórias que Alice criava em sua mente. Todos os dias a enfermeira ia até o quarto da menina e ouvia seus desabafos e as aventuras que criava em sua mente. Sem deixar de anotar uma palavra sequer.

Infelizmente, Alice  executa uma tentativa de fuga. Ela não obtém sucesso, e acaba detida pelos funcionários. A diretora furiosa, manda que espanquem a garota e apliquem a terapia de eletrochoque, para que nunca mais volte a se repetir. Após o castigo, Alice torna-se agressiva e violenta, ao ponto da diretora decidir que a única saída para ela, seria a lobotomia.

Alice viveu por muito tempo em um estado de “coma”. Ela nunca mais viveu, sorriu, tampouco falou. Devido a isso, teve seu corpo devastadoramente abusado, tanto, que acabou por ter hemorragia interna devido à violência empregada em um ato de estupro, e veio a falecer.

A enfermeira que escrevia suas histórias em um diário acabou por se afastar do sanatório, e Alice foi imortalizada como a menina sonhadora que viveu aventuras incríveis no País das Maravilhas.


Post by: Loucifre
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Bons Pesadelos...