Fantasmas do Século XX - Joe Hill

Muito trabalho com o MEDO nesse novo ano, MEDO C em breveee :D E novas surpresas...
Enquanto isso vamos a nova resenha de um livro do filho do mestre...
Resenha do Mário Carneiro Jr.






Ter um pai famoso pode trazer certas dificuldades para aquele que deseja seguir os passos paternos. Sempre haverá comparações, sem contar os comentários no estilo “fulano só conseguiu tudo isso porque o papai ajudou”. Enfim, não importa os méritos pessoais, sempre vai ter um escroto (que nunca fez nada na vida) para criticar. Justamente por isso, Joseph Hillstrom King, filho de Stephen King, preferiu adotar o pseudônio de Joe Hill ao escrever seus contos de horror, suspense e drama, que conseguiu publicar em diversos lugares sem que ninguém desconfiasse de sua real identidade. Aos poucos, a qualidade de seus trabalhos foi chamando a atenção dos leitores e da crítica, sendo que até ganhou alguns prêmios. Em 2005, lançou o livro de contos Fantasmas do Século XX, que ganhou os importantíssimos prêmios Bram Stoker e British Fantasy Award. Dois anos depois, publicou seu primeiro romance, A Estrada da Noite, em uma tiragem maior. Já consagrado como um escritor de respeito (e livre da sombra do pai famoso), Joe Hill pôde enfim revelar sua verdadeira identidade.

Seu estilo é muito diferente do velho King. Não é melhor, mas é diferente, mais sutil e com uma ironia quase britânica. Elementos sobrenaturais se misturam com citações sobre filmes e livros de horror, tornando a leitura prazerosa para os fanáticos pelo gênero. Algumas vezes, o escritor prefere investir mais no drama e nos relacionamentos dos personagens do que no horror propriamente dito, o que pode desagradar os leitores que estão interessados apenas em sentir calafrios. Mesmo assim, alguns dos seus contos são tão bem feitos que conseguem alcançar o status de obras-primas do medo, subvertendo clichês ou abordando o terror de uma maneira diferenciada. Resumindo, é um horror de classe.

Feita a introdução de sempre, vamos ao que interessa: comentários sobre algumas das histórias de Fantasmas do Século XX, lançado no Brasil pela Sextante.

A coletânea começa com a história “O Melhor do Novo Horror”, sobre um editor que publica uma série de livros de contos que faz bastante sucesso. Seu trabalho é, basicamente, ler histórias de terror o dia inteiro, para então escolher as melhores e juntar em um novo livro. O que parece uma profissão dos sonhos (ao menos para mim, he he) se revela algo cansativo e monótono, à medida que o sujeito é obrigado a ler centenas de histórias cada vez piores. Conforme ele diz em certo momento, “a idéia de ler outra história sobre vampiros transando com outros vampiros deixava-o fraco”. Porém, um belo dia ele se depara com o melhor conto de horror que já leu em sua vida (apreciando até mesmo o final-surpresa, apesar de saber que muita gente acha que “finais-surpresa são coisa de amador”). Agora ele precisa encontrar o verdadeiro autor, porém, talvez haja um motivo para aquele conto ser tão realista. Enfim, “O Melhor do Novo Horror” é uma história bastante pessoal, em que Joe fala sobre algo relativo a sua própria vida, com ironia ímpar e sacadas espertas sobre o mercado editorial e o ofício de escrever.

Em seguida vem “Fantasma do Século XX”, a história do velho proprietário de um cinema assombrado. Às vezes, as pessoas enxergam o fantasma de uma mulher lá dentro, algo que ele já viu algumas vezes e espera ansioso para ver novamente. Esse conto causa alguns arrepios ao narrar as lendas urbanas que se formaram sobre o local, além de resultar em uma bela história de amor (!) que irá agradar a todos os cinéfilos de plantão. Sem contar que é interessante ver personagens reais transformados em personagens do conto, como por exemplo, o diretor Steven Spielberg, que deseja comprar o cinema. A descrição apurada do cineasta provavelmente se deve ao fato deste ser amigo de seu pai (ser filho de King também tem suas vantagens, vai dizer que não?).

A terceira história é Pop Art, que de terror não tem nada, mas... caras, é uma das histórias mais emocionantes que já li! Nem vou falar muito dssa fábula delirante sobre a amizade de um garoto com seu novo colega de escola, que na verdade é um boneco de borracha (sim, isso mesmo!). E não, o amigo dele não é uma “boneca inflável”, seus maliciosos, mas um verdadeiro boneco de borracha vivo! Parece idiotice? Eu sei que parece, mas não é. Apenas recomendo a qualquer um que leia essa história antes de morrer. Simples assim.

“Vocês Irão Ouvir o Canto do Gafanhoto” trata de um menino que, um belo dia, acorda transformado em um enorme inseto. Desde as primeiras linhas, fica óbvio que o conto é uma homenagem ao clássico A Metamorfose, do escritor Franz Kafka; mas mais importante que isso, é uma celebração aos famosos filmes B dos anos 50. Assim, acompanhamos a luta do garoto para se acostumar com sua nova condição de gafanhoto gigante, além de sua sangrenta revolta contra todos aqueles que o maltrataram. Um conto que mistura o clássico e o trash, com um resultado bastante satisfatório.

“Os Meninos de Abraham” é menos explícito, investindo na sutileza e na melancolia de dois irmãos que moram com o pai viúvo. O velho exige que eles estejam em casa antes do anoitecer, pois acha que uma criatura das trevas irá atrás deles por vingança. Para quem ainda não percebeu, o pai das crianças é (ou talvez seja) o famoso personagem Van Helsing, do livro Drácula. Sabendo disso, é possível fazer uma releitura da trama, que pode ser interpretada como um desabafo sobre as dificuldades de se ter um pai famoso, e o quanto isso pode ser sufocante.

O tema paternidade é uma constante na obra de Joe Hill. Prova disso é a história seguinte, “Melhor do Que Lá em Casa”, que também aborda as relações entre pai e filho. Esse também não é de terror e, na minha opinião, é uma história fraca. Não empolga, mas também não é ruim. Joe Hill parece ser incapaz de escrever algo que alguém diga “isso é uma merda”.

O sobrenatural retorna em “O Telefone Preto”, sobre um garoto seqüestrado que recebe ligações de um fantasma. História angustiante, sobre a qual é melhor não falar muito. “O Último Suspiro” poderia muito bem ser um conto do grande Ray Bradbury, tamanha a sutileza e a poesia (sem deixar o horror de lado), enquanto “Bobby Conroy volta dos Mortos” é mais uma história de amor (“ah, Mario, que chato”), mas que se passa dentro do set de filmagens do clássico Despertar dos Mortos, de George Romero (“ah, Mario, que legal!!!”).

Estes são alguns dos contos de Fantasmas do Século XX, um livro que mistura horror, drama e ironia de uma maneira impecável. Não vou dizer que é o melhor livro do mundo, e creio que não irá agradar àqueles que preferem uma sangueira básica, mas certamente é indicado para quem deseja algo mais sutil.

Obs. O filho de Stephen King não é o único que fez carreira na literatura. Tabitha King, a esposa do patriarca, também já deu seus passos nos livros de horror. Pena que ela não é tão talentosa quanto o maridão e o filhote... Para ver uma resenha de seu livro Miniaturas do Terror (o único dela lançado no Brasil), clique aqui.

Abraços, boa leitura!


Pensando num concurso de contos em breve... alguém topa ? srsrs
Bons Pesadelos...