30 de maio de 2013

Rua M - Aprovada - Estevão Ribeiro

Estevão Ribeiro é escritor parceiro do Medo B, que está terminando seu novo livro "Rua M". Ele liberou com exclusividade uma das histórias para o MEDO B!!!

Pelo próprio autor:
Rua M é um livro com histórias paralelas. Uma delas é sobre um casal que quer chegar à casa 58 na dita rua e as outras histórias são espécie de "causos" que aconteceram lá, contados pelo dono do Bar que quer convencê-los a esquecerem a casa.
APROVADA é uma dessas histórias, e fala sobre um homem que coloca como condição para assumir o namoro com uma linda jovem se a sua velha mãe aprová-la.


Curioso? Leia aqui embaixo...

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Capítulo 4

“APROVADA”

Aconteceu no comecinho dos anos 70. Eu tinha acabado de me instalar por aqui quando soube dessa história. Um rapaz, coisa de uns 30 anos, ainda vivia com a mãe. Acredita nisso? Se bem que não é difícil de entender. Era filho único, abandonado pelo pai...

– Eu também fui criado apenas pela mãe – diz Bernardo, defendendo o desconhecido.
– Hm. Sei. – Teodoro olha Bernardo de cima a baixo com desconfiança. Em seguida, continua a história.

A mãe do cara era tudo para ele. Acho que o nome era Guido. O que ela pedia, ele fazia.
Era do trabalho para casa, de casa para o trabalho. Ele tinha um pequeno negócio perto da Rua M, um comércio de secos e molhados. Negócio herdado do pai, que sumiu quando ele ainda mamava. O rapaz não era feio e por aqui, ter seu próprio negócio num lugar onde todos trabalhavam no campo transformava qualquer um num bom partido naquela época.
Guido era tão cobiçado quanto um desses coronéisinhos. Quando a mãe dele adoeceu, ele se mudou para a casa da Rua M, e lá instalou a madame. Assim ele ficava a distância de um grito de sua razão de viver, da mulher que não o abandonou quando seu pai partiu desta pra melhor. Quando eu digo “para melhor”, digo para os dois modos. A família nunca soube se ele morreu ou partiu mundo afora.
Mas o filho do sumido era todo certo com seus horários. Saía cedo de casa, acordava com as galinhas. Cinco e meia já estava com o comércio aberto. Voltava para almoçar na companhia da mãe às onze horas, já acamada, que quase não falava. Com um prato nas mãos, ao lado da cama sentado num banquinho, ele ouvia a Rádio Espírito Santo. Não demorava mais de meia hora para almoçar, escovava os dentes, penteava o cabelo e sentava à mesa da cozinha para escrever cartas. Depois, voltava ao trabalho até as quatro horas da tarde, deixando o ajudante para fechar a loja. Em seguida, vai para casa.
Mas toda a quinta-feira Guido ele fazia algo diferente dessa rotina de relógio. Era o único dia em que a sua mãe falava com ele de verdade.
– É hoje, meu filho? – perguntou Dona Carlota, quase sem ar.
Guido se apressa a pegar na mão da sua mãe, olhando aqueles olhos parados no tempo.
– É hoje sim, mamãe! – Guido se ajoelhou, segurando a mão da mãe com uma devoção nervosa – Agüente firme, ela virá hoje!
Naquela quinta, ele estava mais nervoso que o normal. Afinal, era o grande dia. Guido deu um beijo na mãe com as mãos suadas. A velha não conseguia mais falar, ela parecia querer partir naquele momento. Sua pele pálida dava uma aparência de frágil, de que iria se rasgar ao mínimo toque.
– Filho, eu não sei é esta casa ou se é comigo – disse a mãe, reunindo a pouca força que lhe sobrou, – Mas sinto-me mais perto do seu pai aqui. Talvez eu esteja indo de encontro a ele, finalmente!
Guido nunca soube o que aconteceu com Abrantes, o seu pai. A última informação foi que ele fazia parte de um grupo contra a disseminação do Nazismo nestas regiões. Dizem que esse grupo matou pelo menos 20 imigrantes.
Para Guido, seu pai era um herói. Ser filho de um homem assim era lidar com o desafio de superá-lo todos os dias. Por isso ele continuou com o comércio do pai e dando toda a atenção possível para sua mãe, agora acamada, mal podendo se alimentar sozinha.
Mas naquele momento, parece que o propósito de Guido estava para acabar. Sua mãe, chorosa, respirando com dificuldade, se movia menos que um toco velho.
Guido se desesperava, achando que não daria tempo.

– Não daria tempo para quê? – indaga Cíntia. – Para a chegada do médico?
Teodoro ignora Cíntia, chamando atenção para as mãos espalmadas.

Mas então a campainha tocou.
Guido se apressa para atender a porta. Ele coloca o seu casaco, ajeita os óculos e o cabelo de olho no espelho. – Chegou – tentou se acalmar – fica calmo, Guido. Não vai fazer merda.
Enxugando as mãos numa toalha a caminho da porta, Guido geme nervoso enquanto ensaia um toque na maçaneta.
– Oi, Natali! Que bom que você veio! Oi, Natali! Que bom que você veio! – repetiu Guido outras tantas vezes.
A campainha toca novamente, tirando a concentração de Guido. – Já vai! – gritou enquanto abre a porta bruscamente.
Natali na sua frente, assustada com a recepção, colocou as mãos no colo, localizando o coração. Ela ainda soltou um sussurro em forma de “ui!”, junto com uma inspiração forte.
– Oi, Natali! Que bom que você veio! – disse Guido, se recompondo. – Nossa, você está linda!
Ela estava de fato, Um vestido comportado, amarelo, cobrindo o colo com véu. Sua cabeça trazia um chapéu que ela apareceu apenas duas vezes na missa. As luvas brancas escondiam mãos magras, deixando apenas parte do cotovelo e do braço claro e com uma pequena pelugem loira. Os olhos azuis, meigos e contrastavam com o nariz marcante os lábios finos, traços fortes dos descendentes alemães. O cabelo loiro em forma de coque, escondido no chapéu, deixava apenas uma mecha atrás da orelha direita, que ela mexeu instintivamente após o elogio.
– Que nada, você está dizendo isso para me agradar – disse ela, abrindo um sorriso.
Guido pega na mão de Natali e a traz para dentro da sala. – Você está linda. Você é linda, melhor dizendo! E eu estava morrendo de saudades.
– Não parecia! Você parou de me mandar cartas... Pensei que você tivesse desistido de mim!
– Não diga isso nem de brincadeira, amor! Eu precisava de um tempo para tomar uma decisão.
– Uma decisão? – disse ela. – Envolve a mim?
– Se envolve você? Claro que envolve você!

– O cara tinha uma lábia danada – diz Bernardo, cutucando o salgado com o dedo.
– Ou estava abrindo o seu coração, coisas que certas pessoas não conseguem fazer nem à beira da morte! – responde Cíntia, enquanto chegava na gema do bolovo.
– Calma que eu ainda não acabei – diz Teodoro, enquanto corta a carne exposta na estufa do balcão.

Guido segurou Natali na altura dos ombros e, a olhando nos olhos, declarou suas intenções:
– Quero que você conheça a minha mãe.
Os olhos de Natali tremiam, arregalados, ardendo. Ela piscou e uma lágrima desceu pelo rosto rosado. – Guido, isso é maravilhoso! – Eu só preciso ter cuidado para falar de você para ela. É que ela é meio doentinha e tenho medo dela... você sabe!
– Não, não, eu entendo perfeitamente!”, diz ela enxugando o rosto com a ponta dos dedos. Guido estende o braço. “Então vamos?
Natali tentou não chorar, mas não conseguiu sequer falar. Apenas prendeu a respiração e deu a sua mão.
– Seus pais sabem que você está aqui?
– Não – disse Natali num susto. – Fiz como você pediu, falei que iria encontrar uma amiga.
– Que bom! – suspirou Guido. – Não seria direito o povo daqui tomar conhecimento de uma moça de família aqui em casa. Só a chamei assim porque minha mãe está muito ruim e pode não agüentar.
– Entendo, meu amor!
Guido a guiou até a porta do quarto de sua mãe, mas Natali parou de repente, fazendo o rapaz voltar.
– Que foi, Natali? Não quer mais conhecer a minha mãe?
– Claro que quero! É que é tudo tão confuso! A gente se conheceu há algumas semanas, você some e volta, nunca quis me trazer aqui e agora vou conhecer a sua mãe...
– Natali, meu doce! Presta atenção! – Guido a segurou nas duas mãos de Natali. – Minha mãe é uma senhora doente! Eu não queria te dizer isso porque achei que você iria se afastar de mim! Mas você é importante para a minha vida, mas ela precisa aprovar você para que a gente fique juntos.
Guido acariciou o rosto de Natali, que corresponde ao toque segurando a sua mão em seu rosto. – Então, vamos?
Ele sorriu ao receber um aceno positivo de Natali.
Quase eufórico, Guido abriu a porta do quarto. Viu sua mãe, com a respiração pesada, de olhos fechados e cara para o teto. Ele entrou sem fazer barulho, trazendo Natali na ponta dos pés.
– Mãe? Está acordada?
Dona Carlota abriu os olhos sem pressa. Viu seu filho com uma garota em direção a cabeceira da cama. Natali dava passos curtos e suaves, não querendo incomodar a senhora que não parecia tão velha, e sim apenas desfigurada por alguma enfermidade.
Ao mesmo tempo em que a garota sentia pena, também tinha receio de que aquilo fosse contagioso. Tentando não transparecer seus pensamentos, ela se aproximou com um sorriso que conseguia se permitir.
– Natali, esta é dona Carlota. Mãe, essa é Natali, uma pessoa muito especial para mim. Eu a trouxe para a senhora aprová-la.
Natali estende o braço para a dona Carlota. Ela não achava que a velha tentaria pegar a sua mão, pois a debilidade parecia tomar da mulher os movimentos mais simples.
Mas aquilo parecia importante para a dona Carlota. Ela olhava para a garota fixamente, respirando forte.
– Guido, acho que está acontecendo algo com a sua mãe! – disse Natali, recolhendo a mão.
– Não, ela está tentando falar com você, querida!
Natali se encheu de emoção. Já não se importava com o que dona Carlota poderia ter. A menina lhe abriu um sorriso e acariciou seus cabelos e colocou uma das mãos em cima da dela, repousada na frágil barriga.
– Muito prazer, viu? Eu adoro o seu filho. Eu tenho certeza que a senhora vai me aprovar!
Natali olhou para Guido, que estava um pouco afastado da namorada. Seu olhar vítreo dava uma sensação de segurança, mas não pior do que seu nervosismo em se afastar da cama naquele momento.
– Guido? O que aconteceu? Vem ficar perto de sua mãe! – disse a inocente menina, também preocupada com a reação do amado, que parece ter visto o demônio.
Dona Carlota coloca a sua mão no braço de Natali. Guido continua a se afastar em direção a porta. Ela levou à boca na carne alva da menina, a parte despida de tecido e cravou poucos dentes.
Natali não sabia o que fazer ao sentir o sangue tingindo a luva e parte de seu vestido. Sua boca parecia pequena para gritar, seus olhos azuis se encheram de lágrimas de dor e espanto ao ver Guido se espremer no canto do quarto. O espanto também da força da velha, que cravava os dedos em sua pele macia, deixando cortes enquanto impedia a sua fuga.
Quando dona Carlota tira o naco de carne do braço de Natali, o músculo dilacerado se movia evidenciando o osso.
– AHHHH!!! Guido? GUIDO? – Natali não conseguia entender o que estava acontecendo ali. A dor do braço agora também passou para o pescoço, onde dona Carlota grudou com uma mordida mais forte, deixando o sangue escorrer por todo o corpo, enquanto tentar arrancar os nervos.
Natali engasgava com seu próprio sangue, sem poder gritar, sem saber o motivo daquilo tudo. Mas seus olhos não havia a abandonado e ela podia ver o prazer de Guido em cada mordida de sua mãe em seu corpo. Os seus ouvidos, que podiam sentir o pulsar de seu sangue abandonando o seu coração, conseguiram ouvir dona Carlota, que ao olhar para o filho com uma cara bestial e uma voz gutural dizendo:
– Aprovada!
Satisfeito com o que sua mãe lhe disse, Guido saiu do quarto rapidamente enquanto dona Carlota arrastava Natali para a cama, que gritava, se afogando em seu próprio sangue.
Do lado de fora do quarto, Guido ficou ouvindo sua mãe se deliciar de Natali. Ele sabia que dias depois teria que trocar os lençóis, limpar o quarto, dar um jeito nos ossos da garota. Mas naquele momento ele tinha coisas mais importantes a fazer.
Guido foi á cozinha, abriu a gaveta da mesa e de lá tirou um papel de carta. Molhando a pena no nanquim, começou a escrever.
“Querida Andréa, desculpe o sumiço. Tive problemas com a minha mãe, doente há tempos.
Espero que um dia me perdoe, pois tenho grandes planos para nós, meu amor.
Gostaria que você me desse o prazer de visitar-me em minha casa na próxima sexta-feira.
Quero ficar junto com você para sempre, por isso acredito que esta é a hora de um convite muito sério: Quero convidá-la para conhecer a minha mãe, para que ela possa aprová-la. Peço apenas que não comunique a ninguém a sua visita, pois gostaria de fazer tudo nos conformes. Convém o povo saber sobre nós apenas quando oficializarmos tudo.
Minha última recomendação é que você viesse às dezesseis horas.
É que a minha mãe janta cedo e precisa seguir seus horários à risca.
Com amor, Guido.”

– Nossa! Que doideira de história é essa? – Bernardo não havia tocado no bolovo.
– Besteira! – diz Cíntia! Uma velha que come gente?
– Tem doido pra tudo, moça! Toda hora no jornal passa alguma coisa escabrosa!
– É verdade – confirma Bernardo. – Mas isso aconteceu na tal casa? Rua M, 58?
– Sim, Rua M, 58. – Teodoro começa a lavar o amontoado de copos na pia, virando vez ou outra ao falar com o casal.
– E quisera eu que tivesse acontecido só isso!

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Gostou? Aqui embaixo tem outro post, um livro completo do Estevão Ribeiro para vocês!!!
Bons Pesadelos...

9 comentários:

Yara Chan disse...

Gostei! Conto "Aprovado"! XD

Bárbara Bilhalva disse...

Aprovado!! Hehe

Kelvin Abyara disse...

Lembra um pouco o filme Sonambulos, do Stephen King.

Kelvin Abyara disse...

Mas ta aprovado sim

Mandy disse...

No momento que li "Seus pais sabem que você está aqui?
– Não – disse Natali num susto. – Fiz como você pediu, falei que iria encontrar uma amiga ", suspeitei que tinha coisa errada! D:

Gostei do conto! :)

JCFerranti disse...

Só um errinho. Toda quinta era um dia diferente e na ultima quarta ele marca o encontro pra sexta!
Cata Piolho!

Mickael Cavalcante disse...

estavao parabens gostei mt e so li pq foi vc o autor do "tristao" cara eu gosto mt desse hq cara , espero que isso va a seu conhecimento e queria seu contato ! Parabens mesmo cara o/ tenho 18 anos e seu trabalho me cativou parabens outra vez http://m.facebook.com/home.php?refid=7&ref=stream

Estevão Ribeiro disse...

Obrigado a todos pelos comentários! Mickael, você que me acompanha a mais tempo, obrigado pelo carinho! Procura no youtube que o Tristão tem um curta metragem feito por estudantes de cinema de Piracicaba.
Um abraço!
Estevão

Kitty Vilarino disse...

O conto é muito bom, mas há alguns erros de redação que deveriam ser revistos. Por exemplo, "arrastou Natali para a cama, que gritava".

Um bom entendedor até compreende o espírito da coisa, nas na realidade, o que o autor escreveu foi que a CAMA estava gritando.