26 de julho de 2013

A CORRENTE Capítulo 7 - Estevão Ribeiro

Série A CORRENTE:
(Leia Antes: Prólogo, Capítulos: 1, 2, 3, 4, 5, 6)



Roberto sente um misto de raiva com tristeza ao perceber que está sendo traído pela amiga. 

[leiamais]

Gente, muito obrigada pela sua visita! Tive pouco tempo para mexer nas coisas aqui, mas sinta-se à vontade!
Me desculpa a falta de novidades no blog, mas é porque estou de mudança para outro endereço :) ! Ainda estou na fase de arrumação, mas logo passo o endereço para vocês.
Só para vc não ficar aguando >:P , vou adiantar umas coisinhas:
Estou ficando :)!
Ele é um gato e logo abaixo vai uma foto dele.
Estou vendo um emprego de recepcionista >_< ! O salário é muito ruim, mas a minha mãe reclama tanto pra eu trabalhar que nem posso discutir.
Bem, depois eu falo mais.
Ah, não deixe de postar o seu recadinho aqui, hein?
Daki a alguns dias darei o meu novo endereço, mas eu vou manter esse aki um poko + .
Se preferir trocar umas ideias, mande um e-mail para ingrid.gatinh@yahoo.com.br.

Bjão

Ingrid.gatinh@

Depois de colocar a mensagem rotineira no blog, expondo sua vida para o deleite dos curiosos, Ingrid Misamoto explora seu PC, acessando uma pasta de imagens.
Fanática por fotos, escolhe uma entre as dezenas que tirou com o rapaz de vinte e seis anos. Planeja colocar no blog, onde gasta horas escrevendo.
Tem dezenove anos, com olhos puxados que se destacam num rosto levemente pálido. Sua pequena boca rosada quase sempre mostra um grande sorriso nas fotografias que exibe. Os cabelos negros e ralos, nivelados na altura dos ombros, arrematam a obra. O seu corpo e suas ideias fazem-na parecer uma garota de quatorze anos. Seios pequenos, cintura tímida, quase reta. Os anos podem ter passado para o mundo, mas ela não os sentiu. É filha única e foi criada com excessos pela mãe, para total descontentamento do pai, que já mostrara sinais de violência contra a filha. Talvez ciúmes do afeto que sua esposa dedicava à garota, em despeito às suas carências como homem.
Ingrid tem toda a parafernália eletrônica que lhe interessa – celular, câmera fotográfica digital, internet a cabo, TV, DVD e uma impressora. Mas seus pais perceberam o estrago que fizeram mimando-a demais, e agora suspenderam a sua mesada, obrigando a menina a procurar um emprego. Está concorrendo, junto com quinze pessoas, a uma vaga de recepcionista, como noticiou no blog.
Blog que recebe em média cinco visitas diárias, deixando comentários, ora maldosos, ora enaltecendo a beleza da blogueira. Quando termina de postar a foto de seu namorado, Ingrid clica com o cursor do mouse na seta que aponta para baixo da barra de rolagem da janela do Internet Explorer. Visualiza a página, procurando comentários de usuários sobre posts anteriores.
Encontra apenas um, sem relação com o texto ao qual estava anexado:

Oi, ingrid! Já olhou o seu e-mail hoje?

Ass.: Bruna.

Um grito é proferido. Em seguida, barulhos de objetos caindo no chão e vidro se quebrando tomam conta do ambiente. Logo depois, Roberto sai do seu escritório, ofegante. Fecha a porta firmemente, segurando a maçaneta. A fera irracional que se encontra do outro lado não pode ser outra senão Lídia, enraivecida por seu e-mail constar numa lista da qual três pessoas já morreram.
Roberto foi acordado do seu súbito desmaio com tapas carregados de ódio de sua ex-namorada e conseguiu escapar dos ataques enquanto ela empregava sua fúria contra o escritório. Armários, pequenos enfeites, frutos de viagens, estantes com livros, juntamente com centenas de CDs encontram como abrigo provisório o chão do pequeno espaço de trabalho.
Ele já poderia contabilizar os prejuízos, se não estivesse tão atribulado com os acontecimentos dessa maldita manhã.
– Como você pôde fazer isso comigo, Beto? – diz Lídia, ensandecida, investindo contra a porta. – Por que você me pôs nisso?
– Lídia, pelo amor de Deus! Eu não sei o que está acontecendo, mas eu não fiz por mal! – argumenta Roberto, sem deixar de segurar a porta. – Por favor, me perdoe!
– Beto, eu vou morrer, seu desgraçado! – berra, batendo mais forte na porta. Ela segura na maçaneta e sacode, fazendo que Roberto quase a deixe escapar. Ele ainda está debilitado pelos medicamentos tomados devido ao corte no abdômen.
– Não vai, não, Líli! Nem sabemos se os e-mails que eu mandei têm algo a ver com isso!
Roberto tenta acalmar sua ex-namorada, mas não pode se enganar. Sabe que, de alguma forma, as mensagens que enviara para os seus conhecidos têm sua parcela de culpa nas mortes deles e, se não fizer algo, outros morrerão.
Distraído e perdido em seus pensamentos, é uma presa fácil para a raivosa Lídia, que teria o seu pescoço entre as mãos com unhas bem cuidadas. Porém, ela parece querer uma trégua.
– Oh, meu Deus – fala Lídia, deixando Roberto, ainda separado pela porta do escritório, com uma mistura de curiosidade, medo e desconfiança.
– Que foi? – pergunta Roberto.
– B-beto, Beto! Venha aqui, por favor!
– Não vou não – diz Roberto, ainda segurando a porta, certo de que ela tentará forçá-la. – Você está armando contra mim.
– Vem logo, porra! É sério...
Roberto encosta o ouvido na porta para escutá-la melhor, pois a sua voz, mostrando perplexidade, abaixou assustadoramente.
– Tem algo acontecendo no computador!
Ele irrompe escritório adentro. Encontra Lídia de costas para ele olhando para a máquina, estarrecida. Ela tem os olhos ressecados por não conseguir fechá-los diante do que via na tela.
– Que foi? – indaga Roberto, ofegante.
Lídia nada fala. Ela parece hipnotizada por o que quer que esteja acontecendo no monitor que tão desgraçadas notícias lhes trouxera até agora.
Roberto caminha até a moça, com passos hesitantes, sem firmeza, totalmente desconfiados. Prende a respiração e sua mão direita prepara-se para tocar o ombro esquerdo da amiga, ainda estática.
– Líli? O que você está vendo? O que está acontecendo com o computador? – Roberto dá mais um passo e encosta em Lídia. Nota que ela está gelada, tomada pelo medo.
– Me mandaram uma mensagem, Beto! – diz Lídia, ainda sem se mexer, fazendo Roberto tremer. – Estava dentro de sua caixa postal, com a data de hoje. Ela diz que se eu não quiser morrer...
Ele sente um frio na barriga e uma dor no peito. O frio da barriga é causado pelo medo do que poderia sair da boca de Lídia, pois desde que recebera aquela maldita corrente, não ouvira uma boa notícia sequer.
Já a dor no peito é em consequência de uma caneta de metal cravada na altura do coração pela sua ex-namorada, amiga confidente e, agora, assassina.
– ...Eu tenho que te matar!
Roberto não esperava um ataque assim e não acha forças para lutar contra as outras dezoito investidas de Lídia no seu tórax, agora perfurado como uma peneira. O sangue que mina é o bastante para tingi-lo de vermelho, assim como à sua algoz, que demonstrou saber atrair uma vítima para uma armadilha com a maestria de um predador frio e calculista.
Depois de cair totalmente indefeso no chão de seu escritório, manchado por seu sangue, como no sonho, Roberto olha vertiginosamente para o teto, vendo entrar em seu campo de visão Lídia, com o gabinete de seu computador levantado à altura da cabeça.
Sentindo a vida esvair-se do corpo, limita-se apenas a esperar de sua ex-namorada quaisquer palavras que um carrasco diria à sua vítima antes de um golpe final.
Mas nem isso lhe foi reservado. O computador jogado com uma fúria irracional contra a sua cabeça foi seu único gesto, sem frases, sem sorrisos, sem maldições, nada, a não ser aquele objeto retangular metálico crescendo diante de seus olhos à medida que a distância entre as duas maiores ferramentas que lhe proveram uma boa vida até hoje – seu computador e seu cérebro – encurtam-se.
Tudo escurece, o que não dura um segundo, pois Roberto abre seus olhos e vê o teto de seu quarto.
Seu ato instantâneo foi tatear o peito, assustado, procurando perfurações causadas por Lídia com a caneta de metal. Nada. Apenas mais um sonho influenciado pelos fatos atuais.
Ele olha para o escritório e percebe que tudo se encontra no lugar, salvo o que derrubara com o seu desmaio. Levanta e sente uma dor no abdômen. Os pontos do ferimento causado pelo abajur estão abrindo e então resolve ir ao banheiro, pegar uns curativos. Tenta abrir a porta de seu escritório, que se encontra fechada.
Dá três batidas gritando por Lídia, que certamente está pelo apartamento. Ela não responde.
Roberto tenta novamente, batendo mais forte, a porta está aparentemente emperrada, mas Lídia ainda assim não responde. Considera a hipótese de ela ter saído em busca de um médico pelo prédio, pois existem pelo menos dois.
Dirige-se então para o telefone com intuito de ligar para ela, dizendo não mais ser necessário qualquer tipo de ajuda, mas percebe que uma extensão de seu telefone – a da sala – está sendo usada por ninguém menos que Lídia.
Pega o telefone, ativa a função mudo, torcendo que Lídia não lhe ouça e acompanha a sua conversa com alguém não identificado. Era uma voz masculina, pouco instruída para o atendimento por telefone, usando uma série de termos técnicos. O medo e a insegurança presentes na voz da garota indicam que aquela não era uma conversa informal.
– ...Então ele me disse que o Junim... Gésser ia morrer! Eu n-não acreditei nele, mas depois uma foto apareceu... – diz Lídia, assustada. – Acho que ele matou ou mandou matá-lo. Deve ter mandado matar todos eles. Ele está louco! Tem um corte na barriga, que disseram ser por causa de uma queda, mas eu acho que ele pode ter brigado com alguém...
– Senhora – interrompe a voz com qual Lídia conversa – Eu não entendi. Uma foto apareceu onde?
– No computador, que está no quarto onde eu o prendi! Ele tem fotos de pessoas mortas no computador.... E eu estou numa lista que eu encontrei nos e-mails, oh, Deus... Roberto sente um misto de raiva com tristeza ao perceber que está sendo traído pela amiga. Mas ainda não consegue saber com quem ela fala de seu crime, se é que pode ser considerado crime passar uma corrente para colegas. Ele se vê inocente, e de certa forma é, mas as fotos que tem na máquina de três pessoas que morreram após receberem a funesta mensagem não o tornariam bem visto pela sociedade, por um juiz ou pela...
– Senhora, fique calma, mandaremos uma viatura aí agora mesmo.
“A desgraçada ligou para a polícia!”
Roberto se desespera. A polícia em seu apartamento seria o fim para ele, uma vez que, se vasculhassem detalhadamente a sua vida, descobririam que ele era um hacker. Ganhava a vida saqueando contas de clientes que utilizam a internet e não tardaria a ver-se na cadeia, apesar de não existirem leis rígidas sobre crimes digitais vigentes no Brasil.
Ele não tem ideia de quanto tempo tem. A polícia nunca se mostrou rápida no atendimento de ocorrências, mas, por outro lado, Roberto nunca se mostrou com tanto azar e não seria estranho se aparecessem em tempo recorde.
Na verdade, pouco importa se a polícia apareceria daqui a dois minutos ou duas horas. Ninguém em sua posição conseguiria arranjar explicações plausíveis para os fatos que culminariam em sua prisão naquele pequeno escritório, onde já morrera duas vezes em sonho, com um computador amaldiçoado, gibis, CDs, armários e uma...
– A janela.
Ele olha para a sua tela de Itens enviados e anota os endereços para os quais mandou a corrente em um bloquinho de papel promocional de uma loja de informática. Usa a mesma caneta de metal que perfurou o seu peito inúmeras vezes em seu mais recente sonho. Perde segundos estremecendo ao olhá-la com atenção.
Desviando-se do pensamento mórbido de sua segunda morte e jogando a caneta para o lado, Roberto volta-se para o computador, visando deletar todo o conteúdo que poderia acusar-lhe de terrorismo e vandalismo digital.
Ele já sabia que um dia precisaria sair às pressas dali, por isso criou um programa para apagar os dados do seu computador de forma rápida e eficaz. Nunca saberiam o que tinha ali, salvando Roberto de eventuais acusações de roubo de informações bancárias.
Roberto entra no programa e uma tela negra aparece. Ele digita na tela negra apagar hard disk.
O programa executa as ordens prontamente e começa a destruir todos os arquivos de seu computador. Anos de trabalho coletando os melhores programas, dados valiosíssimos, números de contas, informações sobre desenvolvimento de vírus, tudo sendo apagado por causa de uma corrente que recebeu de Bruna.
Enquanto o computador apaga seus trabalhos, Roberto pega uma mochila onde coloca boa parte de seus CDs, apanha o seu celular e uma camiseta vermelha e suja, esquecida num canto há dias e que já exala um odor desagradável. Veste-a. Ele pegaria a chave de seu carro, se não estivesse na sala.
Subitamente, o computador dá um sinal, que deveria ser de tarefa cumprida, mas quando Roberto olha para o monitor depara-se com uma mensagem escrita em branco na tela negra.

A polícia chegou.

Neste mesmo instante, ouve-se o interfone. Roberto está certo de que é o porteiro pedindo autorização para liberar a polícia para subir. Não há tempo a perder.
Empurra o computador para o lado e sobe em cima da mesa, alcançando a janela que fica logo atrás. Ele gostava de ter a máquina ali para poder contemplar a rua de vez em quando.
O plano de Roberto é simples: sair do escritório pela janela, tentando chegar à varanda, cuja entrada é pela sala. Depois, surpreender Lídia, imobilizando-a, pegando as chaves e saindo do apartamento antes de os policiais o encontrarem. Em suma, um ato desesperadamente insensato, porém admissível em seu atual estado.
Com todo o plano na memória e a mochila nas costas, Roberto coloca a primeira perna para fora de seu apartamento. Segundos depois de tomar coragem, ele se vira, ficando de frente para o escritório e colocando a outra perna para fora.
Pisa com os pés descalços no minúsculo beiral, que mal abriga dois terços de seu pé. Roberto precisa dar alguns passos à sua direita para chegar à varanda, encarando os vertiginosos quatro andares que lhe separam da terra firme.
Temendo a morte, Roberto pensa em voltar para o escritório, mas desiste logo, pois sabe que não tem outra chance. Seu coração, que já batia desesperadamente rápido, agora parece pertencer a um colibri em pleno voo.
Sua mão esquerda segura a borda da janela enquanto a da direita esforça-se para alcançar o parapeito da varanda.
Roberto perde o equilíbrio. Seu corpo pesado obedece a gravidade e, numa ânsia desesperada em viver, se projeta contra o parapeito da varanda. Em toda a sua vida sedentária, Roberto nunca pensou em fazer exercício e se arrependeria por isso naquele momento se não estivesse tão nervoso. Ele segura firmemente no frágil parapeito gradeado.
Usando uma força que jamais pensou ter, Roberto consegue subir na varanda, encontrando o acesso à sala fechado. É uma porta de vidro temperado, coberta por uma cortina espessa o bastante para não ser visto pelo lado de dentro do apartamento. Ele tenta forçar a entrada quando ouve a campainha da porta. Tarde demais, a polícia está chegando no seu apartamento.
Roberto não vê nenhuma alternativa a não ser se entregar, já que seria encontrado na varanda assim que dessem por sua falta no escritório. Então, de frente para a porta, prepara-se para bater e dar um fim naquele futuro de incertezas. Mas antes de dar sua primeira batida na porta, um pombo passa em frente aos seus olhos, enquanto ouve uma voz vinda de sua direita.
– Roberto.
Assustado, olha instantaneamente para a direita. Uma garota trajando um vestido de hospital está na varanda de seu ex-vizinho, André, há pouco mais de um metro de onde Roberto se encontra. Ela lembra um pouco a menina que viu pulando amarelinha em seus sonhos. Mas diferente da criança, esta é mais velha, cerca de dezesseis anos e extremamente esquelética. Impossível imaginar onde arrumava forças para se mover. Ainda há os pombos. Está cercada por eles.
O sorriso da garota é idêntico ao do monstro que lhe arrancara as tripas num sonho que nunca vai esquecer. Ela o mantém até desaparecer para dentro do apartamento de André, seguida por todas aquelas aves.
Roberto percebe uma clara intimação daquela mórbida criatura para que a seguisse, mas ele imagina se teria um preço. Olha para a porta de sua varanda e ameaça entregar-se, sabendo que iria preso e que nunca conseguiria provar a sua inocência pelas mortes da corrente.
Então toma impulso de sua varanda, um espaço onde não se consegue dar três passos largos, e salta em direção à área do dançarino, pousando desastrosamente sobre o ombro direito. Levanta rapidamente e entra no escuro apartamento de André. A morte, quando passa por um lugar, deixa sua marca. Quando o patriarca de uma casa morre, ela fica em eterno luto. É o que se sente naquele apartamento. Um inquietante e insuportável pesar. Roberto vê-se totalmente contaminado pelo ambiente.
Nem os quadros de família escapam. As figuras estáticas da família de André em todas as fases de sua vida mostram que foi querido. Aniversários, entrada na escola primária, formatura, namorada, viagens, trabalho, tudo captado para efeito de lembrança ou culto ao bronco, musculoso – e agora morto – dançarino, seja pela família ou por ele mesmo.
As paredes parecem suspirar pesares, lamentando a morte de seu dono. Apesar da luz vinda da varanda, tem a impressão que nada trará cor àquele ambiente cinzento.
Roberto sente uma pequena dor no ombro, fruto de seu pouso malfeito na varanda, mas tenta ignorá-la, precisa sair daquele prédio.
Avança pela sala em direção à porta. Ele chega a tocar na maçaneta, mas, cercado de incertezas sobre como passaria pelos policiais, hesita em abri-la. Algo chama a sua atenção.
– Moço? Ajuda ela. – diz uma voz vinda do corredor à sua direita.
O sangue de Roberto gela e ele deixa cair a mochila no chão. Não pensa em encarar o que quer que esteja lhe chamando e tenta abrir a porta, mas está trancada.
– Moço? – volta a chamar a dona da voz, uma menina negra de oito anos, com um pombo no ombro.
É a garota da amarelinha, séria, sem o seu sorriso artificial, mirando fixamente Roberto. Ela está de pé, de costas para o corredor. O rapaz vai em direção à porta, tentando se afastar da garota.
– A porta está trancada. A polícia entregou as chaves à família de André. – diz a menina, chamando a atenção de Roberto. – Mas tem uma cópia aqui. – aponta para uma cômoda à esquerda do corredor escuro.
A garota fala movendo os músculos da face apenas o necessário para pronunciar as palavras. Nenhuma expressão, só indiferença. Não há ódio, rancor, nada ameaçador, mas o simples fato de ela se dirigir a Roberto é o bastante para lhe fazer chorar de medo.
– Oh, meu Deus! Por que está fazendo isso comigo? – pergunta o hacker, sem obter nenhuma resposta.
Lacrimejando, caminha em direção à cômoda que teria a chave para sua liberdade, nem que fosse para encontrar os braços da lei. Naquele momento, Roberto só deseja estar livre daquela casa.
Caminha de lado, ficando de frente para a aparentemente inofensiva e imóvel garota. Olha desconfiado, sentindo que ela pode aplicar um bote, como uma cobra venenosa.
Ela nada faz.
Ele abre a gaveta da cômoda, olhando alternadamente para o seu conteúdo, o molho de chaves sobressalente, e para a garota. Desconfia que ela irá fazer alguma coisa. Não está errado.
Abruptamente, a garota avança contra a gaveta, fazendo Roberto recuar num grito. Ela pega as chaves, que têm como chaveiro um pedaço de madeira pirogravado com o nome, André.
A garota olha fixamente para Roberto, inexpressiva, com as chaves em punho à altura da cabeça, exibindo-as como um prêmio.
– Você só sai daqui se ajudar ela! – ordena a garotinha, mostrando-se dona da situação.
Antes mesmo que Roberto possa argumentar, ela desaparece no corredor, entrando no quarto onde André passou seus últimos momentos de vida.
Não acreditando que esteja longe, entra no corredor escuro em direção ao quarto, palco de uma morte macabra. A cada passo, sente-se menos impelido a ir, pois sabe que a situação é real, e não um pesadelo, onde pode se dar ao luxo de morrer.
Roberto caminha vagarosamente pela passagem claustrofóbica, pedindo aos céus forças para não fraquejar diante do desconhecido.
É como se estivesse novamente preso no seu primeiro e tenebroso sonho, onde teve o encontro com Jorge, o senhor parcialmente carbonizado que lhe pedia silêncio. Roberto não consegue parar as lágrimas dos olhos já inchados e avermelhados e por vezes leva a mão à boca, contendo gritos ensandecidos. Mesmo assim, caminha para o fim do corredor, ficando em frente à porta do quarto principal.
Abrindo-a facilmente, mas não com menos receio, Roberto olha para dentro do quarto mal iluminado de seu finado vizinho com os poucos móveis remanescentes. A cama de casal arrumada, lençóis brancos e travesseiros azulados, o criado mudo amarronzado, mais fotos em suas paredes, lembranças de viagens pelo litoral brasileiro, miniaturas com temas indianos em pequenas prateleiras nas paredes, luminárias e uma mesa para o computador, que foi levado pela polícia para averiguação.
Depois de percorrer todo o quarto com o olhar, vê à sua esquerda, encostada no canto oposto ao computador, a menina. Arrisca dois passos para dentro do local, aproximando-se.
Ela está acuada como uma fera que sente que será capturada, e Roberto se amedronta com aquilo. Por mais ridículo que possa parecer, pensa no que aquela garota poderia lhe fazer, em como morreria se ela assim o desejasse.
Sabe que aquela criança podia ser muito bem o mesmo cadáver carbonizado diabolicamente animado que lhe atacara em sonho. Roberto sempre teve medo da morte, sabia que a encontraria um dia, mas nunca imaginou que estaria no corpo de uma garotinha de oito anos.
– Moço? – chama a menina, fazendo Roberto quase pular de susto. – Ajuda ela.
Ele dá dois passos em direção à garotinha, deixando a porta aberta e, amedrontado, dirige-lhe a palavra:
– A-ajudar quem?
Roberto ouve a porta do quarto bater às suas costas, dando um susto que lhe faz tremer. Por reflexo e tomado pelo medo, tenta sair. Não queria que a sua morte chegasse ali, na casa de seu desafeto, como um fugitivo da polícia. Desesperado, força a porta, encontrando uma resistência mística nela.
Então ouve um gemido. Um lamento vindo da dificuldade de respirar que, por ser um pouco grave, não poderia vir de uma garota de oito anos. Ele se volta para o canto onde a viu acuada e ela não está mais lá. Olha à sua volta e percebe que não é mais o quarto de seu vizinho. Sutis barulhos de lençóis e cobertores se atritando com os movimentos de algo em cima da cama são ouvidos. Os gemidos vêm de lá.
Roberto, de costas para cama, vendo que a porta não cederia às suas investidas, vira num movimento lento, formulando seus últimos pedidos a Deus. De punhos fechados, contraindo todos os músculos do corpo, nervoso, as artérias desenhando raízes por todo o seu pescoço. Sua cabeça recebe tanto sangue que a dor que isso lhe causa turva a visão.
Ele olha para cama e fica estarrecido. Não consegue controlar o medo, emudecendo completamente por segundos. Lágrimas nos olhos, Roberto ainda te
nta se controlar, mas ao olhá-la pela segunda vez, resquícios de alimentos não digeridos, segundos antes estacionados em seu estômago, projetam-se boca afora, como se tivessem vida própria. A garota esquelética que ele viu na varanda agora está deitada numa cama, que, como todo o quarto, mudou, virando uma cama de solteiro. Um cobertor grosso cobre-lhe as pernas. Sua aparência é digna de compaixão para os bondosos e de nojo para os intolerantes. O frágil corpo contorce-se como se não tivesse outra forma de se expressar. Seus olhos parecem a única parte viva de seu rosto, já que todo ele se encontra apenas em pele, como uma caveira forrada.
Sua mão esquerda tem um cateter introduzido, que a alimenta com o soro pendurado num pedestal. Já a direita, que de tão frágil poderia quebrar se lhe tocassem, traz as chaves do apartamento.
Cada vez que a moribunda garota tem um dos seus espasmos, elas batem umas nas outras, criando assim o barulho de um pequeno sino, como se quisessem chamar atenção de Roberto.
A garota projeta um olhar mortal, enquanto tenta vociferar algumas palavras.
– Bvhem fheghar.
Roberto a olha assustado. É incompreensível o que ela quer dizer, tendo a língua dormente em sua boca, atrapalhando a pronúncia até de uma simples vogal. Mas ela não precisa repetir. Assim como aconteceu no encontro com a pequena garotinha que jogava amarelinha no seu sonho, Roberto entende perfeitamente a adoentada. Usando um olhar demoníaco, capaz de desarmar o mais corajoso dos homens, aquela garota entra em sua mente e lhe dá o recado que seu debilitado corpo não conseguiu:
– Vem pegar.


No capítulo 8

[...]pega uma parte do papel impresso e sente seu coração parar ao lê-lo:

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4 comentários:

Jefferson Reis disse...

Madrugada fria e eu lendo esta narrativa. A garota está ficando estranha e misteriosa. Fiquei com raiva da Lídia, mas a entendo.

Fernanda Mello disse...

Adoroooooo....
Fico contando os dias para o próximo capítulo!!

Pandora disse...

Também tive raiva da Lídia.
Essas chamadas pros próximos capítulos me matam de curiosidade.

Jean Ghidorsi disse...

Muito bom mesmo, hipnotizante, mal posso esperar o próximo capítulo!