16 de agosto de 2013

A CORRENTE Capítulo 10 - Estevão Ribeiro

Série A CORRENTE:
(Leia Antes: Prólogo, Capítulos: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9)

 


A única paz que existe é a eterna, a que encontramos quando morremos... 

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A mobília do quarto parece cúmplice de Bruna. A forma com que o fogo se alastra dá a entender que tudo ali é solidário à dor da garota traída pelo hacker, que havia demonstrado compaixão apenas para esperar o momento exato de seu ataque.
Roberto corre em direção à porta daquele cômodo e grita ao tocar a maçaneta em brasa. O fogo circunda o marco da porta, portando-se como algo vivo ou místico, tentando intimidá-lo.
Abruptamente, a janela ao lado da cama incandescente se abre, dando passagem a uma revoada de pombos que pousam desastrosamente, alimentando a pira. Roberto olha a cena aterrorizado, não notara a abertura graças à escuridão intensa do quarto.
O hacker percebe que a madeira da porta foi enfraquecida pelo fogo e tenta forçá-la, dando um chute com a sola do pé. Sem êxito em sua primeira tentativa, ele tenta novamente, sentindo uma queimadura nascer em seu pobre pé descalço. Uma terceira vez ainda não é o suficiente.
Quando se prepara para tentar uma quarta vez, certo de que poria aquela porta abaixo naquele instante, ela se abre. Roberto não entende a aparente dádiva que lhe é oferecida e hesita em passar. “E se aquele demônio estiver no corredor, me esperando?”
Ao olhar para a pira, que começa a devorar todo o quarto, Roberto percebe os pombos vindo em sua direção como um raio. As bizarras aves em formas de tochas voadoras batem as asas, espalhando fagulhas por onde passavam, incendiando o ambiente como mensageiras do juízo final.
Ao ver os pássaros se aproximando, semelhantes a filhotes de Fênix, Roberto se joga no chão, protegendo o rosto, à espera do ataque fatal. Ao perceber que não fora atingido, observa que as aves se dirigem ao corredor, espalhando a destruição do quarto para os outros cômodos do apartamento.
Roberto gasta segundos preciosos de sua vida vendo o caminho pelo qual terá de passar tornar-se lentamente uma fornalha. De repente, escuta um barulho diferente do crepitar da madeira. Algo – ou alguém – que devia estar sendo consumido em meio à pira que se tornou a cama resiste desesperadamente ao seu fim. Roberto treme, tenta focar-se na saída daquele inferno, tenta resistir ao próprio instinto de sobrevivência e de vingança que o faz querer olhar a garota com quem lutou pela liberdade queimar.
Mas não resiste. Cerra as mãos em forma de punho, trava os dentes de nervosismo e, suando de calor e desespero, olha para trás.
Dois olhos em meio aquele inferno observam Roberto, fazendo-o gelar. Em sua cabeça, ele ouve uma voz gutural e cheia de rancor:
– A japonesinha estava onde eu queria, Roberto! Por que você fez isso?
Roberto não responde à voz, metendo-se no corredor em chamas. Seus pés encontram brasas vindas dos quadros outrora pendurados na parede e do tapete em chamas. Cobriam-se de queimaduras e bolhas instantâneas, correndo pelo inferno instalado naquele percurso.
Mas seu senso de sobrevivência é maior que a dor. Não havia fugido de seu escritório, transformado em prisão pela sua ex-namorada, para morrer na casa de um falecido desafeto, ainda mais carregando a suspeita de ter sido o autor de sua morte. Assim, Roberto consegue passar um pouco chamuscado e com os pés seriamente feridos, mas não graves o bastante para lhe fazer parar.
Ao olhar para o corredor de onde acabara de sair, observa que algo caminha em sua direção, sem se importar com o fogo. A silhueta de uma garota magra é nítida entre as chamas. Um frio percorre a espinha de Roberto um segundo depois dele constatar que é o mesmo demônio que vira em sonho arrancando-lhe as tripas. Mas está diferente, pois a sua pele ainda não está inteiramente queimada.
Conclui finalmente que, assim como a pequena menina de oito anos e a garota de dezesseis anos adoentada, aquela criatura que caminha incessantemente pelo corredor só pode ter um nome.
– Bruna? – questiona Roberto. Ele não espera resposta, correndo desesperado para a porta, desviando dos pombos incandescentes que ainda se debatem no chão.
A criatura não parece ter pressa. Sai do corredor lentamente, enquanto o vê procurar qual das chaves do molho abre a porta. Tem certeza que Roberto é dela.
O apavorado hacker finalmente consegue achar a chave e trêmulo, tenta encaixá-la na fechadura, sem sucesso. O nervosismo é demais até mesmo para alguém que sempre viveu sob tensão, como ele.
Sentindo a vitória, Bruna equilibra-se sobre as pernas finas e caminha lentamente em direção a Roberto. Ele desiste da porta e bate a testa contra o cruel pedaço de madeira que o separa da liberdade. Chora e fala consigo mesmo, despedindo-se – mais uma vez – da vida.
A garota de pele queimada anda até Roberto, que não ousa se mexer. Com o rosto desfigurado perto do dele, Bruna aproxima o que um dia já foi uma boca da sua orelha. Sussurra palavras que o fazem urinar nas calças.
– Colabore com a gente ou eu te mato!
Roberto apenas escuta aquele ultimato. Não tem coragem de olhar para o ser demoníaco que o ameaça. Seus olhos estão fechados com tanta força que dóem. Quando finalmente os abre, percebe que a sala está intocada.
Não há nenhum demônio ameaçando-o, não há fogo e também não há pombos, nem sequer prova de que eles realmente existiram. Não há caos, não há fuligem nas paredes, nem mesmo o clima de luto do apartamento. O local parece imaculado, como se nada houvesse corrompido aquele lugar que ele sabe ser maldito.
Porém, há chaves em sua mão. Há urina descendo por suas pernas, molhando o tapete do apartamento. E há medo, pois Roberto sabe que tudo o que passou foi real. Bolhas de queimaduras em seus pés lhe injetam dolorosas doses de realidade cada vez que ele se apoia no chão.
E há a mão determinada a abrir a porta. Assim, segundos depois, há uma porta aberta. É a saída daquele inferno, mas Roberto não sabe o que lhe espera lá fora.
– E se eu estiver sonhando? – indaga, ensimesmado. – E se ela estiver lá fora?
Encara aquela saída com desconfiança e ignora a pequena chance que o destino lhe dá. Encosta na porta e resolve ficar mais um pouco naquela sala, a cinco passos de seu apartamento.
Ingrid Misamoto se depara com uma situação parecida com a de Roberto. A porta de sua casa está trancada. Ela conta com aquela barreira para a pôr a salvo de Nayumi, a mãe que, dominada por Bruna, deseja tirar-lhe a vida.
O vestido que trouxera do quarto está amarrotado. Ela o enfia de qualquer jeito, sentindo-se melhor, como se aquele tecido fino fosse protegê-la. As mãos suadas tateiam a mesinha de centro, atrás do molho de chaves. É tarde demais, porém. A sua mãe desce as escadas pulando os degraus de dois em dois. Um passo em falso a faz cair e torcer o pé no meio do percurso. Ignora a dor, mancando na direção da filha com uma frieza espantosa, típica de alguém possuído.
A jovem corre para a cozinha. Sua intenção é usar a porta dos fundos e no caminho derruba tudo o que puder servir de obstáculo – mesas, pequenos armários, cadeiras – entre sua mãe e ela.
O desespero supera o instinto de sobrevivência por um segundo e ela chora ao finalmente assimilar o que está acontecendo. A sua mãe, sua maior protetora e amiga incondicional por toda a vida, persegue-lhe. Saber que ela está sob influência de uma criatura tão bestial não diminui sua dor. E naquele segundo, por um mísero pedacinho de tempo, Ingrid deseja morrer.
Aquela pulsão de morte a abandona assim que chega à cozinha. Não sabe como teve forças para chegar até ali. A única certeza que tem é que não quer morrer. Não daquele jeito. Não ali.
Seu primeiro ato é ir de encontro à porta que leva aos fundos da casa, também trancada. Sente-se presa numa imensa teia, tecida como se aquela criatura fosse uma aranha diabólica, pronta para devorá-la.
Sem ter como sair, Ingrid vai até os armários. Abre as gavetas, à procura das facas grandes e pontiagudas que sua mãe usava para cortar carne. Na terceira gaveta, Ingrid acha uma, bem a tempo de virar-se e ver sua mãe despontar no acesso da sala para a cozinha. Para a jovem, é cada vez mais difícil acreditar que aquela marionete diabólica é a mesma pessoa que sempre amou tanto.
A mulher possuída encosta-se à parede e olha para aquela que chamara de filha com os olhos fulgurantes e a boca aberta, tentando mostrar presas que não tem, como um animal raivoso. Hesita ao ver a garota apontando uma faca, o rosto retorcido em ódio e nojo.
– Fique longe de mim! – grita Ingrid, com a pouca energia restante. – Me deixa em paz!
Neste instante, o rosto de Nayumi muda. Ela fica séria e imóvel como uma estátua. Os olhos perdem o fulgor e ficam gelados, mortos como brilhantes bolas de vidros.
– Que paz, filha? Quem vive em paz? – diz a mulher, inclinando a cabeça para o lado esquerdo, dando um passo em direção a Ingrid. – A única paz que existe é a eterna, a que encontramos quando morremos...
– Para trás! – berra Ingrid, ainda apontando a faca.
– E se eu não quiser? – pergunta o arremedo da mulher que Nayumi foi para a filha, encarando-a duramente. – O que você vai fazer com a sua mãezinha?
– V-você não é minha mãe! – diz Ingrid, as mãos tremendo, mas segurando a lâmina com a firmeza que consegue. O medo crescente em seu interior ameaça explodir num jorro de vômito. – Você é um ser desprezível que nem tem coragem de mostrar a cara verdadeira e se esconde atrás de uma mulher inocente! Me mostre quem você é de verdade, caralho, e deixa a minha mãe em paz!
Ingrid está ensandecida. Ninguém desafiaria o desconhecido com a firmeza que ela demonstra sem ter ajuda da fúria do louco escondido em cada indivíduo. Aquela parte que normalmente fica acorrentada num quarto escuro de nossa mente ou coração, e é alimentada pelas pequenas estripulias que lhe são permitidas. Mas agora, essa parte da psique de Ingrid já não é contida por nada. Não há nenhuma força racional imperando sobre a garota. Se não consegue sair dali, quer enfrentar aquele mal e sobreviver, ou morrer tentando.
A criatura não vê problema em atender ao pedido daquela condenada e, abruptamente, Nayumi desaba no piso cor de marfim da cozinha.
– Não tenho coragem de me mostrar? – questiona a voz gutural vinda de nenhum lugar, ao mesmo tempo em que parece estar por todo o ambiente. Os dizeres ecoam na cabeça perturbada de Ingrid. – Acha mesmo que eu não tenho coragem de me mostrar para você? Pois fique sabendo que se usei a sua mãe para lhe matar, Ingrid.gatinha...
A criatura de aparência aterradora, pele tostada, ameaças malditas e olhos gélidos se materializa ao lado da desacordada Nayumi. Mantém a cabeça baixa.
– ...Foi para lhe poupar do nojo de me ver – completa a diabrete, erguendo o olhar e encarando fixamente sua presa, com ódio. – Foi apenas um minúsculo ato de compaixão com você. Acredite, eu realmente gostei de seu blog.
Ao finalmente observar a criatura que havia visto de relance no reflexo do espelho, Ingrid pode lembrar todos os detalhes que apenas uma mente apavorada consegue assimilar. Treme nervosa, mas não larga a faca.
– Meu Deus! O que é você?
– Uma pessoa com tão pouco tempo de vida deveria gastá-lo mais sabiamente! – diz a criatura deformada, avançando contra Ingrid, o que sobrara das mãos em garras.
Ingrid tem planos traçados para o futuro desde os quinze anos: fazer faculdade de psicologia, ter seu próprio consultório, casar com um profissional tão bem sucedido quanto ela aos vinte e nove anos, quando já teria um apartamento do jeitinho que sonhava. Curtiria o marido por um ou dois anos e depois teria um filho. Na cozinha da casa dos seus pais, vê seus planos serem desfeitos pela criatura que deseja a sua morte, e contra quem tem apenas uma faca de cortar carne à disposição.
Ela fecha os olhos ao sentir o fim inevitável chegando na forma de uma garota esquelética e deformada pelo fogo. Sentir-se tão perto da morte faz com que perca o controle de seu corpo. A firmeza que lhe permitiu sobreviver até ali abandona-a, sendo o primeiro sinal o braço direito, que fraqueja e solta a faca.
Depois são as pernas que, não contemplando a responsabilidade de uma fuga ou até mesmo de enfrentar a morte bravamente, dobram-se em sinal de derrota. Ingrid apoia-se com as mãos no chão, a cabeça voltada para o demônio.
A criatura olha para a sua vítima vencida, como o abutre que contempla um gado fraco na seca, à espera do fim inevitável.
– Bruna? – a criatura indaga espantada, ao ver a garotinha que se materializa atrás de Ingrid.
– O quê? – Ingrid não consegue evitar a surpresa, pois pensava estar sozinha com sua algoz e o corpo inconsciente – talvez sem vida – de sua mãe.
– Deixe-a. – diz a garotinha.
– Não! Ela tem que morrer! – afirma a criatura bestial, erguendo as mãos em forma de garras. – O e-mail não foi mandado! A corrente foi quebrada!
A pequena Bruna avança em direção à criatura. Atravessa Ingrid, que, ajoelhada, acompanha o diálogo que para ela é um monólogo. Sua ‘protetora’ é invisível e voz da menina não chega aos seus ouvidos.
– Mas alguém já pagou por isso! – diz com firmeza. – Você já teve a sua cota de sangue por hoje!
– Não desta vez, pequena! – afirma a criatura que avança em direção à Ingrid. No meio do seu pânico crescente, não consegue nem ao menos implorar pela ajuda divina.
Mas seja lá quem for que comanda o destino de cada vida, não abandona Ingrid no momento de terror que vive. A criatura que antes investia todo o seu ódio em direção à adolescente para subitamente e fica assim por três segundos.
Ao contemplar a face de sua carrasca, Ingrid confirma o que a criatura apenas pode sentir: seu rosto está se regenerando, abandonando o aspecto de fuligem e ganhando tons avermelhados. As mesmas mudanças que acontecem em sua face podem ser percebidas por todo o corpo e também na roupa, que perde as manchas pretas e cinzas, dando lugar a um branco impecável.
Ingrid assiste àquele espetáculo macabro com tanto asco que por pelo menos duas vezes pensa em pegar a faca e dar um fim a sua vida.
– Não! – diz a criatura, ao ver seus braços cada vez mais regenerados, com o aspecto esquelético da Bruna adoentada, que naquele momento fazia companhia a Roberto.
– Bruna? O que está acontecendo? – indaga a recém-chegada à criatura, que cada vez se parece mais com a contraparte adoentada.
– Ela... d-deve ter feito de n-novo! – afirma, quase toda regenerada, com apenas algumas queimaduras leves. Seu rosto, porém, ainda traz marcas profundas, como se o demônio resistisse à dádiva concedida.
– Roberto! Com certeza ele deve ter feito algo! – afirma a pequena. – É inevitável o encontro com ele, Bruna. Faça-o colaborar com a gente.
– Hm... Roberto. Será interessante revê-lo – afirma a criatura. Em seguida, o seu corpo mostra-se completamente regenerado. A expressão de seu rosto muda e se Ingrid não estivesse tão assustada, perceberia que a mente diabólica que habita aquele corpo havia sumido. Pelo menos, por enquanto.
A Bruna adoentada cai no chão em frente a Ingrid, que agora tem uma chance para fugir, mas não consegue mover nem um músculo.
Ela contempla a figura frágil do mesmo jeito que olhou o demônio que ali estivera: com medo. Está na cozinha a sós com a mãe, não sabe se morta ou apenas desmaiada, e com a recém materializada aberração.
Fica imóvel nessa contemplação até perceber a mais suave das brisas acompanhada por um som harmônico, quase cantado. No primeiro instante, o sinal é totalmente ignorado pela garota desesperada. O cômodo fica mais frio e Ingrid escuta claramente.
– Vá procurar um modo de prolongar a sua vida!
A porta da cozinha se separa do marco, abrindo-se dez centímetros. Sem entender o que está acontecendo, mas sem ignorar o funesto aviso, Ingrid sai com a roupa do corpo, deixando para trás a garota moribunda e a mãe caídas na cozinha. Leva consigo apenas o nome que a garota disforme soltara antes de ter seu corpo invadido pela Bruna doente:
– Roberto.

No capítulo 11:
“– Se você soubesse que aquele e-mail iria me matar... Você teria mandado a maldita mensagem?”

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5 comentários:

Chris disse...

Tudo sempre no twitter, injustiça pra quem não tem...

Zi disse...

Geeeeeeeeeeeeeente, essa história tá ficando cada vez melhor!*-*

Estevão Ribeiro disse...

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Pandora disse...

Tô cada vez mais curiosa ><'

Sara disse...

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