18 de outubro de 2013

A CORRENTE - FINAL - Estevão Ribeiro

Série A CORRENTE:
(Leia Antes: Prólogo, Capítulos: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17)


  Alguém mais quer ir atrás de Roberto? Todos os amaldiçoados levantam a mão, ou o que podia ser identificado como tal.

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Roberto é apresentado ao chão do quarto por Jeremias. Sua barriga tem um rasgo aberto, parecido com uma boca salivando sangue na camisa e respingando no chão.
– Que bom que chegou, Roberto! – Ingrid está sem o buraco na cabeça, mas o ódio que mostrava antes de sua morte continua evidente no seu olhar. – A Lídia está prestes a se salvar da furada em que você nos meteu!
– Ingrid? Você não foi morta pela Bruna! Por que você está aqui?
– Ela foi condenada pela sua mensagem, Roberto – Plínio responde, olhando para Gésser. – Assim como eu fui condenado por te ameaçar quando este idiota tentava te proteger!
Plínio dá um tapa na nuca de Gésser, que tenta conter a risada. O antigo parceiro de pilantragens virtuais de Roberto continua:
– O único modo de não corrermos risco era passar a corrente pra frente, mas como havia chegado a minha vez, esse otário não viu problemas em acabar comigo!
– Roberto é meu bróder, cara! Mexeu com ele, mexeu comigo! Eu morreria pelo cara, se já não tivesse morrido!
– Você ainda não percebeu, seu idiota? – André se mete na conversa, segurando Gésser pelo pescoço.
– Do que você tá falando, mermão?
– Seu “bróder” ali botou a gente nesta droga, cara!
Gésser olha para seu “bróder”, desconfiado. Ele torce o nariz, entorta a boca, olhando nos olhos de Roberto.
– Tu fez isso mesmo, Betão? Porra, Betão, olha pra mim! Como você sacaneia seu bróder assim, cara? Sou eu, o Junim!
– Me perdoa, Junim! Eu tentei te avisar, cara – Roberto tenta se explicar, estancando o ferimento e com a arma em punho. – Eu não sabia que isso ia acontecer, Junim, você tem que acreditar em mim! André larga Gésser.
– Vai lá, acerta as contas com esse otário, Junim!
Gésser se aproxima do amigo, olhando-o fixamente para seus olhos, atento a qualquer movimento que ele faça. Mas petrificado de medo ou simplesmente debilitado demais para correr, Roberto o espera.
O morto olha para o hacker, acompanha o rosto febril molhado de suor, a respiração ofegante que mostra a morte iminente. Gésser então abre um sorriso para o cara que lhe pôs no inferno.
– Motonetas, hein? Quem diria... – Gésser ri e abraça o amigo. – Vamos lá, cara! A Lídia vai escapar dessa e a gente não pode perder! Sorte a dela, não?
Os dois amigos dirigem-se à cama de Lídia, cercada das vítimas da mensagem que Roberto encaminhara.
– Você vai fazer isso mesmo, Lídia? – pergunta Roberto, escorado na cama.
– O que mais posso fazer?
– Você quer condenar mais pessoas a uma morte horrenda pelas mãos de Bruna e ser assombrada pelas suas vítimas?
Lídia olha chorosa para Roberto. Depois percorre com o olhar todos os rostos presentes na sala. Lembra das formas demoníacas que os condenados pelo hacker assumiram depois de suas lamentáveis mortes. Lídia se desmancha em lágrimas enquanto se volta para o antigo namorado.
– E você? Vai querer ser assombrado por mim como é agora pelos seus amigos?
Roberto abaixa a cabeça, tentando conceber a ideia de ver a pessoa que mais estima morta de forma brutal e condenada a acompanhar seus passos como um fantasma sabe lá por quanto tempo, talvez pela vida toda. Ou além disso. Porém, se Lídia passar a corrente, Bruna continuará matando e terá uma nova chance de perpetuar a maldição, como ele mesmo fez.
Roberto pesa tudo ao seu redor. Uma alma querendo descansar em paz. Sete amigos condenados por um erro. Um demônio que pode continuar a amaldiçoar pessoas. Sua decisão está tomada.
– Eu queria que fosse diferente, Lídia – Roberto aponta a arma para sua amada.
– O que você está fazendo, Roberto?
– Sinto muito ter condenado a todos nós – Roberto pega o notebook do colo de Lídia, rapidamente. – Mas não posso deixá-la sentenciar mais pessoas!
– Não! Não deixem ele me matar! Peguem ele!
A sala muda gradativamente e seu branco mágico e pacífico dá lugar ao encardido mofado habitual. A máscara cai, pois não é mais necessária para tentar Lídia a perpetuar a maldição. Ela sabe o perigo que corre e não é o ambiente decadente de um hospital largado às moscas que a fará mudar de ideia.
Os amaldiçoados amigos de Roberto voltam à forma grotesca adquirida no além-morte. Os seres que já foram seus amigos agora são amontoados de carne e fraturas expostas, caminhando como podem na direção do causador da nova condição, o criador, o pai de todos, rei e sacrifício daquela pequena e monstruosa plebe.
– Deixa comigo! – Gésser segura o notebook, tentando tirá-lo das mãos de seu amigo. – Larga isso, Roberto! A menina precisa se salvar, cara! Não banque o egoísta!
– Eu não posso, Junim! A maldição precisa acabar aqui! Eu não vou largar!
– Ah, você vai largar sim! – afirma o bronco e despedaçado Gésser que, com um giro de seu tórax comprometido, lança seu amigo contra a janela. Sentindo o notebook nas mãos, ele sorri satisfeito. – Não falei?
– O que você fez, seu idiota? – reclama Leda, fazendo o corte na garganta escorrer sangue.
– Do que cê tá falando, porra? Eu não tô com a droga do computador? – pergunta Gésser, sentindo-se cheio de razão, mostrando o monitor do notebook em seu poder.
– Você destruiu a única coisa que podia me salvar – chora Lídia, apertando os lençóis com raiva.
Ela sente o lugar esquentar. O teto do quarto começa a descascar e pequenas lascas de tinta caem. Ao se aproximar do solo, transformam-se em algo que, da última vez que Lídia viu, não foi um bom sinal. – Oh, Deus! Não pode ser.
– Oh, olha só, pessoal! – diz Gésser, um sorriso disforme no rosto. – É neve!
– Deixa de ser idiota, Gésser! – Jeremias pega o que está caindo e mostra para o amigo. – São penas!
Ao tocarem no chão, começam a enegrecer. O cheiro de cabelo e penas queimadas toma o ar. O fogo surge por todo o chão do quarto, circundando as camas, rodeando Lídia em uma ilha no meio de um mar de fogo. A porta do quarto se abre e pombos adentram, amontoando-se até dar forma à menina Bruna.
– Eu ia passar a corrente, Bruna! Juro que ia! Roberto não deixou! Eles não deixaram! – Lídia berra, apontando com a mão trêmula para os amigos amaldiçoados. De repente, ouve-se um cantar de pneus.
André olha pela janela que Gésser ajudou a destruir e consegue ver apenas o carro de Plínio quebrando a cancela do estacionamento do hospital. Ele ainda observa o porteiro, que após a passagem do automóvel pega o telefone e efetua uma ligação.
– O Roberto pegou o carro do Plínio. – André bate com a mão numa ponta de vidro, mas não liga para o ferimento.
– Ele já está morto, André – desdenha a pequena Bruna. – Vamos nos concentrar em Lídia.
– Eu quero ir atrás dele – pede Plínio.
– Eu também – apoia Ingrid. Bruna se volta para as crias da sua maldição, reprovando-as com um olhar.
– Alguém mais quer ir atrás de Roberto?
Todos os amaldiçoados levantam a mão, ou o que podia ser identificado como tal.
Roberto dirige com dificuldade, tentando estancar o ferimento com uma das mãos. O pedaço de notebook correspondente ao teclado está com ele e de nada vale. Tem um plano para salvar Lídia, mas precisa de um computador – e logo.
De repente, vê uma pessoa andando com dificuldade, parece uma velha, algo estranho naquela hora avançada. Isso o faz pensar que não importam as horas, ele não pode ser salvo daquele pequeno demônio que matou seus amigos. O sol, que nascerá em algumas horas, não irá trazer alívio nenhum. Ao se perder em pensamentos, não percebe que a velha está mais perto. É ninguém menos que Leda.
O carro atravessa o espectro, que se desequilibra e cai ao sentir o veículo passar. Enquanto seu corpo fica para trás, a sua cabeça repousa no banco do carona.
– A Lídia vai morrer por sua causa, Betinho! Satisfeito? – Leda parece estar numa cena extraída de um filme de terror grotesco e barato.
– Se eu fizer tudo direitinho, ela não vai morrer. Eu prometo!
– É bom mesmo, cara – diz Gésser que, junto com Plínio e André, aparece no banco de trás do carro. – Muita gente já morreu por causa dessa corrente.
Roberto está de olho fixo na pista tentando achar o caminho mais próximo para chegar em casa. Avista uma pessoa na estrada, dirigindo-se ao seu carro. Parece que não vai parar. Roberto desvia da pessoa que considera um bêbado ou louco, mas logo aparecem mais três. Desistindo de entender, ele fecha os olhos e os atravessa, transformando-os em névoa.
– Como eu disse, Betão... – confirma Gésser, tocando o ombro do amigo e apontando para frente, mostrando a multidão de almas penadas obstruindo a rua. – Muita gente já morreu!
– Mas que merd... – Roberto se assusta, mas mantém o carro na pista, a despeito dos rostos e corpos disformes que vêm de encontro ao para-brisa. Em cada face é impossível não notar o sofrimento que Bruna infligira: cortes profundos, mandíbulas destroçadas, olhos esmagados.
Roberto navega pelo mar de amaldiçoados, tentando achar uma saída daquele inferno. As expressões apavorantes que passam por sua janela ameaçam tirar a sua concentração, mas calejado com o horror que passou nos últimos dias, não encontra dificuldades. Porém, uma garota, que não parece ter mais que 16 anos, está atravessando a rua com seu par, tão jovem quanto ela. Devem estar voltando de uma festa, caminhando pela rua vazia sem imaginar que estão em meio a uma profusão de almas torturadas pela corrente. Eles até sentem algo, mas confundem o gelar da espinha e o eriçar dos pelos com o medo de serem assaltados.
A menina é de uma beleza comum, mas que se destaca em meio a tanta bestialidade. O hacker avista o casal como um farol, a pouco mais de meia quadra. Eles se assustam com o carro que ferozmente acelera, tomando como certo o estrago que fará se Roberto não agir rápido. Ele gira o volante do carro para a direita, desviando-se da menina, mas a lateral do carro acerta o garoto. A pista torna-se pequena para o Fiat Uno, que toma a calçada e em seguida arrebenta a porta de aço de uma loja.
Lídia implora no quarto em chamas para que Bruna não a mate. A menina ri, deliciando-se com o desespero da vítima que vê o fogo se aproximar dos lençóis.
– Vamos ver quanto tempo você dura, Lídia!
– Eu não vou morrer do seu jeito! – grita a moça aproximando se das divisórias do quarto, estranhamente não atingidas pelas chamas, tentando se valer delas para combater o fogo.
– O-o que você vai fazer? O que você está fazendo? – grita a diabólica Bruna, como Lídia nunca viu desde o momento que seus destinos se cruzaram. A menina parece ter medo do que Lídia está prestes a fazer, embora a moça não percebesse o motivo. Em todo o caso, resolve arriscar.
– Vou lutar até morrer, Bruna! Você não vai me levar daqui!
Lídia põe uma das mãos na cortina. O fogo já chega à cama e ela precisará o quanto antes de algo para apagá-lo.
– Não toque nessa cortina, garota... – diz Bruna, mudando sua forma de menina diabólica para um demônio completo. – Ou vai sofrer muito mais que seus amigos!
Pela primeira vez, Lídia nota medo no olhar do demônio. Imagina o que pode ter causado aquilo, já que não está com nada especial. Tem a cortina nas mãos, mas qualquer pessoa conseguiria perceber que o grotesco demônio que se aproxima dela com cautela não tem medo da cortina, do material que ela foi feita, ou de sua cor. E Lídia tem a sua resposta num lampejo.
– Não antes de ver do que você tem medo, Bruna! – grita, puxando a cortina, expondo o motivo de temor do maldoso demônio.
O barulho estridente do alarme do estabelecimento não deixa Roberto ficar desacordado por muito tempo. É uma loja de calçados com umas poucas gôndolas em seu interior, o que facilitou a invasão do Fiat Uno. O carro parou na coluna entre as promoções de sapatos femininos e o caixa da empresa.
Com dificuldade, Roberto rasteja pela porta do carona, empurrando a cabeça de Leda para fora do carro. Ingrid, André, Gésser e Jeremias esperam pelo hacker junto ao mar de almas que lotam a loja como se fosse o último dia de liquidação.
– Betão, você precisa tomar mais cuidado, cara! Senão, logo, logo vai se juntar à gente! Há!
Roberto se levanta com dificuldade e percebe que seu antebraço tem uma fratura exposta.
– Acho que vou mais rápido que você pensa, cara! – o hacker anda em direção ao computador próximo ao caixa. Ele o liga e o computador passa por todas as suas configurações lentamente, até estar totalmente habilitado para conectar-se à internet.
Usando apenas uma das mãos, Roberto acessa a caixa postal de Lídia. Nunca antes se orgulhara tanto das suas habilidades, mesmo tendo conseguido os dados de sua amada apenas para espionar suas atividades. O debilitado hacker encontra a mensagem de Bruna e abre.
– O que vai fazer agora, idiota? – pergunta André. – Vai condenar sua namoradinha, seu traíra? Ou vai foder mais sete pessoas como fez com a gente?
– Vou fazer o que é certo, André. Eu sinto muito pelo que fiz com você e com os outros. E principalmente pelo que aconteceu com Bruna. No fundo, tudo foi culpa minha. Não posso fazer nada mais por vocês, mas prometo consertar o que der.
Ele sorri ao pensar na ironia. Seu código tinha possibilitado a Plínio roubar o dinheiro da conta de Bruna. Sua habilidade para descobrir senhas iria terminar de vez com o sofrimento da condenada. Chamados pela adolescente, uma ambulância e um carro de polícia chegam ao local do acidente. Paramédicos atendem o garoto.
– Ele vai ficar bem, moço? – pergunta a garota, enquanto o paramédico imobiliza o rapaz na maca.
– Não parece nada muito grave – diz o paramédico, preparando-se para levantar o garoto. – Acho que o cara lá de dentro está pior!
Avisados, os policiais entram na loja.
Roberto está com tudo pronto para dar um fim àquele pesadelo, ao menos para Lídia. Ele ainda tem dúvidas se vai funcionar, mas é o melhor que pode fazer. Ele enganara bancos por muito tempo, vivendo à custa de brechas em programações, usando identidades falsas, vivendo da forma que queria. Agora, ele precisa fazer o bem. E se algo der errado, que ele pague o preço, não Lídia. Todo o amor que ele sempre sentiu por ela e nunca expressou está manifestado ali, naquele esforço sobre-humano.
O mar de almas dentro da loja não quer perder nenhum dos movimentos de Roberto. Há expectativa para saber se uma alma irá se salvar, condenando outras, ou se finalmente alguém morrerá sendo o último elo da corrente. Eles sabem que seria fácil matar o hacker naquela hora. Porém, a incerteza do que os aguarda depois do estado no qual se encontram faz com que nenhum queira ser julgado por matar alguém, que, desta vez, quer fazer certo.
Roberto está prestes a enviar a mensagem, bastando apenas apertar o botão Enter.
– Vai em frente, Beto! – diz Gésser, tentando levantar algo que um dia já fora um polegar. – Te vejo daqui a pouco!
Roberto olha para as pessoas que condenara e para os tantos outros que também assistem. Ele não percebe um vulto sólido em meio àquela névoa sobrenatural.
– Parado, polícia! – grita o policial, que ao atravessar as almas encara a experiência como resultado do clima de tensão de não saber quem está enfrentando. – Saia de perto do caixa com as mãos para cima!
Roberto se afasta por reflexo.
– Eu não fiz nada de errado!
– Levante as mãos, rapá!
– Não dá! – diz Roberto, afastando-se do computador. – Eu não estou roubando nada não, seu guarda!
– Eu tô mandando você levantar as mãos, porra! – manda o policial, já alterado.
– Eu já falei que não dá, cara! Meu braço tá quebrado! Eu sofri um acidente e...
– Saia então de trás do balcão e me acompanhe!
– Eu preciso pegar uma coisa aqui antes – diz Roberto, dando um passo em direção ao computador.
– Se você encostar nesse balcão eu te meto uma bala na cabeça, moleque! – adverte o policial, com receio do rapaz pegar uma arma escondida.
Roberto pensa no tempo que irá gastar com uma explicação que não será aceita. Nada poderá explicar as fotos das primeiras vítimas de Bruna em sua caixa postal, tampouco as duas mortes no Santo Antônio. O depoimento de Lídia só irá servir para incriminá-la como cúmplice de algum plano macabro. Alguém precisa ser salvo, ou Bruna simplesmente ganha.
Ele sabe o que tem que fazer.
– Bruna não pode ganhar! – grita Roberto, avançando sobre o computador. O policial, temendo por a sua própria vida, atira.
Quando a cortina cai, o demônio que avançava sobre Lídia recua, caindo de costas no chão em chamas. Lídia não entende de imediato o que vê, mas mesmo assim se surpreende. Uma mulher está encolhida na cama, ligada a aparelhos. Não consegue identificar nem idade nem a cor, pois seu corpo é coberto por cicatrizes de queimaduras que a transformam numa bola de carne moldada num forno. Ao analisar a situação e notar os olhos tristes da criatura ali deitada, a jovem não tem nenhuma dúvida.
– Bruna!
A mulher apenas pisca para Lídia, num sinal de confirmação, que tenta se controlar para não gritar. Seu olho esquerdo, assim como todo o rosto, foi comprometido por queimaduras.
Diante da revelação, o calor da sala diminui. As chamas vão ficando menores até não sobrar nada além de pontos luminosos de brasa no chão. Lídia, descalça, usa a cortina como tapete e aproxima-se da debilitada Bruna.
– Então, você não morreu.
– E você acha que isso é viver? – diz a versão demoníaca, tão queimada quanto a que se encontra imóvel na cama. – Ela está morta, ou melhor, nós estamos mortas, ela é que não sabe!
– Ela tem mais vontade de viver que você, Bruna! Você se deixou levar pelo ódio, sabe-se lá por quê!
O demônio tenta resistir ao medo ou repulsa que sente por sua contraparte acamada, pois quer matar Lídia, não só por ela não ter passado a corrente, mas por ter descoberto o seu segredo.
– Você está condenada, Lídia! Não passou a corrente e não vai poder ficar perto dela pra sempre! – diz o demônio, transformando-se na aparentemente frágil menina, à medida que se aproxima. Apenas sua mão esquerda mantém-se queimada, como pequenas adagas mergulhadas em plástico derretido.
– Mas veja pelo lado bom... – ela continua, erguendo a mão, pronta para desferir o golpe. – Esta maldição acabará assim que você morrer!
Lídia espera o golpe final de olhos fechados.
Ela arrisca olhar depois de algum tempo e se depara com uma aparentemente agradável surpresa: a mão da menina é contida pela debilitada Bruna.
– Me solte, irmãzona! – ordena a menina. – Ela vai ter que morrer! É a regra da corrente!
Um olhar para a pequena Bruna bastaria, mas a mulher de vida comprometida pela tragédia deseja falar. Respira com dificuldade e reúne toda a força de vontade que ainda lhe resta, mesmo depois de tanto tempo.
– Ela passou a corrente.
– O quê? Mas como...? – a menina arregala os olhos, sem entender como aquilo pode ter acontecido. Ela olha para Lídia, tão surpresa quanto ela e percebe que a garota foi salva por um golpe de sorte... ou alguém.
– Roberto! – dizem as duas, ao mesmo tempo. A adoentada Bruna só confirma acenando com a cabeça.
– Não! Não pode ser! – grita a pequena diabrete. – Eu só queria ser livre! Eu já vaguei demais, irmãzona! Eu só queria agora descansar! Não quero continuar a corrente! Eu não...
E a pequena Bruna se afasta, desfazendo-se em penas de pombos que, ao tocar o chão, queimam até se tornarem cinzas.
– O que aconteceu, sargento? – indaga o policial para o companheiro, dentro da loja de calçados destruída.
– Uma morte, parceiro. O garoto ia usar uma arma e eu tive que agir rápido. – explica o sargento, colocando a arma no coldre, enquanto o outro avança cuidadosamente para trás do balcão. Lá ele encontra o cadáver de Roberto com um tiro no peito, o teclado no colo e o dedo no botão Enter.
– Não tem arma nenhuma por aqui não, companheiro – lamenta o sargento, olhando para o monitor ensanguentado. – Só um e-mail enviado!


Epílogo

Seis dias depois, Lídia sai de sua cela pela terceira vez na semana para falar com o delegado Costa, na distrital da Praia do Canto. O oficial, geralmente rígido com os detentos do local, é muito gentil com a pobre sobrevivente da maldição.
– Então, Lídia, espero que você possa jogar uma luz sobre esse caso, já que está mais recuperada da morte de seu namorado.
– Ex-namorado. Roberto foi, acima de tudo, um companheiro, mas isso foi passado. Prefiro que ele seja lembrado apenas como um grande amigo.
– Certo, desculpe. Mas continuando, espero que você se lembre de mais detalhes ou possa nos ajudar a entender o que aconteceu naquele quarto. Melhor, o que aconteceu com o seu namorado.
– Amigo.
– Desculpa.
– Tudo bem. Não sei o que o senhor quer exatamente. Não me lembro de nenhum detalhe novo e o senhor tem meu depoimento, tá tudo registrado.
– Sim, tá aqui – responde o policial, tirando o depoimento de uma pasta. – Mas eu te garanto que tudo o que você falou até agora te incrimina e vai te mandar direto pra Mutum, menina!
– Como assim? Sei que tudo aponta para mim, seu delegado, mas sou apenas mais uma vítima. – Nem a menção ao principal presídio feminino da região faz com que Lídia diga algo diferente.
– Você quer mesmo que eu acredite que seu “amigo” promoveu um massacre contra várias pessoas e que você não sabia de nada? – diz o delegado, levantando-se da cadeira, após fixar fortemente as mãos na mesa.
– Eu não sei! Roberto começou isso tudo, eu sobrevivi ao que ele estava tramando e o senhor me acusa de ser cúmplice? – mente Lídia, achando impossível a polícia ou um possível tribunal acreditar na trágica história que presenciara. – Eu estava na lista!
É claro que essas palavras proferidas contra o ex-namorado doem no coração, mas ela não imagina nada melhor para se livrar da prisão. Todos os dias ela chora na sua cela provisória na delegacia, pedindo em silêncio para que seu salvador a perdoe.
– Facilita, garota! Primeiro, o vizinho de Roberto foi encontrado morto, pouco depois de você acionar uma ambulância para o Roberto. – afirma o delegado, contando nos dedos os acontecimentos. – Dois dias depois, dois policiais foram mortos, atendendo uma denúncia sua. No outro dia, mais dois policiais morreram no hospital onde Roberto estava internado! Se não bastassem essas “coincidências”, você foi encontrada desmaiada no quarto de uma paciente que lutou para se manter viva por mais de sete anos e logo no dia em que você esteve na sala, o que acontece? Ela morreu! Me fala, garota! O que aconteceu? Onde você se encaixa em tudo isso?
Lídia não responde. Ela está ali, mas não escuta o que Costa diz.
Sua cabeça ainda está no quarto 118, onde experimentou algo mortal e sobreviveu. Assim que a pequena Bruna sumiu, Lídia quis sair do local. Ela tinha que achar Roberto, saber o que ele fez. Ela sequer deu um passo e seu braço foi agarrado por Bruna.
– O que você está fazendo? – perguntou Lídia, ao sentir que a deformada mulher lhe segurava com força.
Lídia notou que a sala estava sendo tomada por uma gélida névoa. Chegou a pensar em como aquilo era apropriado, já que antes aquele lugar fervia em chamas. O sobrenatural estava ali mais uma vez, agora em forma de almas que, para ocuparem aquele pequeno quarto, atravessavam-se, mesclavam-se. Lídia estava envolta num mar de almas.
– O que está acontecendo, Bruna? – gritou Lídia, tentando soltar-se da mão da moribunda mulher.
Bruna falava com o olhar. Lídia estava apavorada demais para entender.
– Chegou a hora dela, Lídia.
– Quem falou isso?
A névoa se mexia e então passou a adensar aos poucos, formando uma mulher grande, com seu rosto desfigurado por arranhões, o pescoço largo com marcas de sangue. Seu braço direito, antes debilitado pelo uso contínuo do computador, agora estava pendurado pela grossa camada de pele e gordura, indicando que, de algum modo, um osso fora arrancado dali, à força e dolorosamente.
– É hora de todos nós descansarmos, Lídia – disse o ser que já foi Laura.
– Quem é você?
– Mais uma vítima... Uma alma presa a uma maldição que precisa acabar aqui! Dê um fim nisso, Lídia!
Lídia deu um passo para trás, chegando perto de Bruna.
– Mas eu não quero morrer! Eu não quero morrer, Bruna! – disse a garota, colocando a mão livre em cima da de Bruna.
– Mas não é você, Lídia – acalmou Laura, aproximando-se da cama. – Ela precisa partir.
Lídia entendeu o que a condenada estava propondo, mas, na sua cabeça, não parecia certo. Então, a garota que passou o inferno em poucos dias olhou para a névoa e reconheceu, entre a inumerável quantidade de rostos, o de Plínio.
– Ela precisa descansar, Lídia. Mas antes ela precisa ouvir toda a verdade, para que você possa viver em paz também.
Ela podia sentir os olhos cheios de maldade e ódio da menininha, como se a criatura ainda estivesse ali.
– Mas Roberto me salvou, não?
– Há uma parte de Bruna que ainda quer vingança, pelo roubo que condenou a sua família. O roubo feito pelo programa de Roberto.
Com os olhos marejados, ela contemplava Bruna, como se estivesse em sua mente.
– Não foi ele, Bruna. Roberto foi enganado pelo Plínio. Foi ele que levou você à ruína. – apesar de falar olhando para a mulher acamada, sabia que suas palavras se dirigiam ao demônio. No silêncio que se seguiu, ela sentiu a pressão do olhar diabólico sumir. A seguir, um grito abafado no qual ela reconheceu a voz de Plínio mostrou que nem a morte era castigo suficiente para a monstrinha.
A moribunda mulher entendeu o que precisava acontecer, e estava conformada, ou pelo menos parecia. Lídia se lembra de cada detalhe, do modo como a mão dela apertava a sua, mesmo com os movimentos limitados. Lídia olhou para o aparelho que mantinha Bruna respirando e o desligou, de olhos fechados. Ela chegou mesmo a prender a respiração, ao ver que a Bruna não respirava mais, numa reação inconsciente de cumplicidade. Aos poucos, a mulher que lutou tanto finalmente descansava em paz.
– E agora?
– Agora, nós vamos poder seguir nosso caminho – disse Laura, dando as costas e caminhando em direção à parede. – Obrigada, Lídia. Roberto ficaria orgulhoso de você.
– Ficaria? – Lídia encheu-se de esperança com a possibilidade de Roberto estar vivo. – Ele não está aí com vocês?
– Não – disse Laura, tendo seu rosto reconstruido, mostrando uma bela mulher.
– Então, ele está vivo! – concluíra Lídia, com um sorriso nos lábios.
– Não.
Entre as névoas que seguiram Laura e, gradativamente, tomavam a forma de pessoas, estava André, olhando para Lídia com um sorriso vingativo. Nesse momento, ela percebeu que algo aconteceu a Roberto. Quando o local voltou ao normal, nada mais sobrou para a garota além de gritar o nome do ex-namorado e perder a consciência, a poucos metros do cadáver de Bruna.
É a terceira vez que Lídia repassa mentalmente esta história, e faria novamente, se o delegado Costa não interrompesse.
– Ô! Isso não é lugar de dormir não, minha filha! – grita Costa, batendo na mesa com a mão aberta. – Você vai confessar que estava com o Roberto ou não?
– Eu não sei de nada, delegado! – diz Lídia, recobrando-se.
– Então, o que ele fazia acessando SUA caixa de mensagens dentro de uma loja de calçados em plena madrugada? – indaga o delegado, encarando-a nos olhos.
– Eu não sei.
– Ele mandou uma mensagem para sete pessoas. – afirma o delegado Costa, deixando Lídia assustada.
– V-você tem os nomes dessas pessoas? Já sabe quem são?
– Sim, senhora – diz o delegado, dando um sorriso de canto de boca. Ele nota o nervosismo de Lídia e sente-se satisfeito por estar no caminho certo, finalmente.
– Você precisa avisá-los, delegado! Eles precisam passar a corrente pra frente! – grita a moça, contendo-se para não avançar no policial.
– Isso não será possível, Lídia – afirma Costa, mostrando tranquilidade.
– Por que não? Você disse que sabe quem são! Precisa salvá los da morte certa!
O delegado olha para Lídia. Uma ponta de frustração aparece no rosto dele, pois começa a acreditar que a garota está louca, ou não sabe mesmo de nada.
– Eles já estão mortos.
Lídia se desespera e desfaz-se em choro, mostrando ao delegado que sabe de algo.
– Isso não pode estar acontecendo! Eu não posso passar por isso de novo! Essas pessoas morreram por minha culpa!
– Eu acho meio difícil, Lídia.
A garota que antes estava se derretendo na mesa levanta a cabeça, exibindo os olhos vermelhos e miúdos.
– O que o senhor disse? Mas eles não morreram?
– Sim – confirma o delegado, pegando uma pasta. Ele a abre, tira algumas folhas e fotos presas com um clipe para papel. – Leontídio Cunha, 63 anos, morto em 2002. Abelardo Garcia Beltrame, 72 anos, morto em 1999. Gilda Mara de Assis, 47 anos, morta em 2005...
– Peraí, do que você está falando? Isso não pode estar certo!
– Eu mesmo chequei quatro vezes. – O delegado entrega os documentos para Lídia conferir. – Descobri que Roberto mandou mensagens da sua caixa postal para uma lista de “laranjas”.
– Como assim? – indaga a moça, entre rápidas conferidas de fotos e datas.
– Ora, Lídia. Tudo bem que você queira me convencer de que não está envolvida nos assassinatos e no rastro de sangue deixado pelo Roberto, mas não acha que vou acreditar que você desconhecia os métodos dele pra ganhar a vida, não é? Além do mais, levantamos a ficha de seu amigo, o Plínio. É da mesma laia de seu namorado!
– O que quer dizer com isso? – indaga Lídia, ignorando a palavra “namorado”.
– Plínio roubava contas também, e há três anos os dois roubaram trinta mil reais de uma conta. Te parece familiar, Lídia?
– Claro que não! E eu com isso, delegado? – Lídia se faz de desentendida. – Eu mal conhecia o Plínio!
– Então, estamos com um problema, garota... Porque você namorou o Roberto, que era um ladrão, conheceu o amigo e comparsa dele e estava no quarto da vítima do roubo!
– Mas... mas como? Eu sou inocente! E Roberto... ele era web designer.
– Roberto podia ser também isso... – diz o delegado, puxando um bloco de formulário contínuo da gaveta e pondo na mesa, em frente à Lídia. – Mas o que ele fazia bem mesmo era usar dados bancários de pessoas mortas para compras pela internet. Sabia que muitas vezes os parentes não avisam do óbito? Pessoas como Roberto usam esses dados e, se fizerem direitinho, nem dá para saber que o morto está de fato morto! Ele praticamente assumiu a identidade dessas pessoas!
Lídia finalmente entende tudo o que o ex-namorado fez para salvá-la. A culpa a corrói enquanto lembra que o prendeu em seu próprio escritório, que levou Plínio e Ingrid ao seu encontro e que quis matá-lo ao achar que suas esperanças de sobreviver àquela maldição haviam acabado num notebook partido.
– Roberto mandou a corrente para ele mesmo! Sete vezes! – conclui Lídia, em choro. – Roberto não é culpado, delegado. Se o senhor quer mesmo saber o que aconteceu, eu contarei. Mas garanto que tudo o que eu falei antes lhe parecerá muito mais lógico do que vou te contar agora.
Dificilmente Lídia sairá dessa experiência ilesa, psicológica e judicialmente. Ela contará sua história dezenas de vezes e ninguém acreditará. Tentarão dizer que ela está louca, que sua frágil mente criou defesas para atenuar as traumatizantes cenas que presenciou. Mas Lídia será firme em sua versão e a contará exatamente como aconteceu. Algumas pessoas comentarão o caso pela internet, emitindo suas opiniões pessoais sobre o episódio.
Outras farão correntes. Contarão os depoimentos de Lídia mesmo depois após sua morte, narrando o que aconteceu, em memória de um curioso que enviou uma carta mortal para seus amigos. Eles também amaldiçoarão quem não passar a história para frente, afirmando que as consequências serão terríveis. Se as ameaças são verdadeiras? Só saberá quem deixar de passar a mensagem.
Mas também haverá piadas, fotos de lindas paisagens, situações engraçadas, mensagens de otimismo, de como superar as agruras da vida, cálculos de quebrar a cabeça, inúmeros provérbios de sábios chineses, centenas de crônicas atribuídas a Luís Fernando Veríssimo, a Arnaldo Jabor, a Paulo Coelho sem conhecimento deles, experiências de vidas que não existiram, citações de Shakespeare, de Leonardo da Vinci, curiosidades sobre retratos, fotos, histórias de sobreviventes de guerra, tudo que possa atiçar a curiosidade de milhões de usuários.
E, ao repassarem essas mensagens para seus amigos, talvez uns poucos perceberão que elas vêm de uma pessoa que não conhecem.
Um tal de Roberto.



Gostaram? O livro chegou ao fim, mas a parceria com o Estevão Ribeiro não! A cada 15 dias teremos um conto dele no MEDO B!!!

18 comentários:

Kimberly disse...

Oi, meu nome é roberto e eu sou um hacker. Ou seria se estivesse vivo. Morri baleado por um policial enquanto eu salvava a vida de minha ex e de varias outras pessoas. Repasse isso para 666 pessoas em 420 segundos ou vou tirar 69$ da sua conta bancaria toda semana. Mwahahah

Pandora disse...

Bom desfecho. Valeu a pena ter acompanhado essa história por meses.
Que venham os contos agora!

Pâmela nakamura disse...

Eu achei que tinha 25 cap =s

Pâmela nakamura disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pâmela nakamura disse...
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Pâmela nakamura disse...
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Loke lawliet disse...

Nem li,nem lerei a corrente,me da sono

Carlos Eduardo Romero Nobre Leal disse...

Não sei se vão concordar comigo,mas senti fortes influências do primeiro jogo da série Silent Hill. Achei isso muito legal e acredito que os demais fãs da série também.

Estevão Ribeiro disse...

Ei, Carlos. É uma questão de sincronicidade. Infelizmente nunca joguei e nem vi Sillent Hill (eu até comecei, mas foi na casa de uma amiga e só vi até a parte que a mulher chega na cidade e as cinzas começam a cair).
Quando meus alunos do curso de roteiro me contaram a trama, eu fiquei louco! São, de fato parecidas, mas minhas grandes referências para A Corrente sempre foram O Chamado e Premonição!
Mas que bom que gostou! Abraço!

juul.liana disse...

Gostei mt . Espero que tenhas mais historias assim .

Beijos. ;*

Karol Andrade disse...

É bem perceptível a influência de O chamado kkk' Adorei o livro, agora só preciso da versão em papel dele.. Ficou simplesmente perfeito..

Estevão Ribeiro disse...

Obrigado a todos! Karol, é só entrar em contato pelo vendas@ospassarinhos.com.br . Eu tenho os ÚLTIMOS exemplares do livro! R$ 25,00, já com frete! :)

Mariana Gonzales disse...

Comprei o livro em um sebo á algum tempo,mas foi realmente difícil achar,acho muito legal o Medo B. Ter postado ele aqui! O livro parece ótimo,ainda estou lendo mas já gostei muito!

Ótimo trabalho Estevão :)

Nany^_^ disse...

M-U-I-T-O bom! Estevão está de parabéns! Percebi uma puxada de Premonição na história em alguns pontos, o que só me fez amar mais!!!

Thais disse...

Você escreve muito bem, amei a história, me prendeu bastante!

Ph. disse...

Vcs poderiam disponibilizar o livro em PDF pra download agora né *-*eu iria adorar,, tô louco pra ler, mas não tenho net em casa :'(

Estevão Ribeiro disse...

Salve, PH. O livro está disponível sim, em pdf, para baixar. Espalhe a notícia!
http://www.slideshare.net/estevaoribeiro5/a-corrente-passe-adiante

flavia_mioshy-bc disse...

pO livro em PDF não ta mais disponível pra baixar :/