8 de novembro de 2013

Estalos

Eu ouvia estalos.
Às vezes altos, às vezes baixos. Estalos, ruídos, barulhos incômodos. Sempre pensei que fossem os móveis. Eles eram velhos, rangiam quando eu me movia. Rangiam quando eu não me movia também. Sempre rangiam, na verdade. Velharias. Coisas inúteis, antigas. Serviam somente para assustar.
Mas os estalos estavam lá, mesmo quando os móveis eram novos.
Às vezes, quando eu me deitava sob as cobertas, eu os ouvia. Ouvia mais, ouvia bastante. Quando as luzes estão apagadas, nossa audição se aprimora. É algo que o corpo faz por si só. Ouvindo melhor, ouvimos também o que não queremos ouvir. Como os estalos. Como o vento na janela. Como a dança dos galhos do lado de fora.
Como os passos.



Deitado, de olhos abertos no escuro (que, de tão escuro, chegava a ser pior do que ter os olhos fechados), eu os ouvia. Eles andavam no andar de baixo, na cozinha, na sala. Andavam nos banheiros, na copa. Subiam as escadas. Essa era a pior parte. Era horrível imaginá-los, pensar que estavam próximos. Eu sempre pensei que os estalos vinham dos móveis. Essa era a melhor opção. Assim, eu ficava mais tranquilo, mais calmo. Mas os móveis não andam. Os passos não eram dos móveis. Os passos eram deles.
E eles subiam as escadas, sem pressa. Subiam e subiam, degrau por degrau, e eu os escutava. Fechava os olhos, puxava as cobertas, contava carneiros, vacas e ornitorrincos, mas não dormia de modo algum. Eles subiam as escadas, vagarosos. A lentidão era o que mais me doía. Cada passo devagar, cada passo sereno, era de romper o coração. Sentia meu sangue gelar, subir à garganta quente, voltar às pernas gélido.
Aí as luzes se acendiam.

Isso também não era coisa dos móveis. Eles acendiam as luzes, uma a uma. Seus passos estavam mais próximos. Eles estavam ali, do outro lado da porta. Eu tentava ficar quieto; estava paralisado. Tinha medo deles. Medo do que quer que fossem. Medo de que me mandassem embora. Medo de que me fizessem mal. Queria gritar, chamar minha mãe, mas sei que ela não viria. Nem meu pai. Ele zombaria de mim. Diria que era um medo bobo. Diria que eu era criança, que era idiota. Então ficava ali, quieto, tremendo de medo.
Ouvia suas chaves na maçaneta, e este era o meu limite.
Eu sempre saltava da cama nessa hora, corria para debaixo dela e me escondia. Eles não podiam me ver ali, ninguém poderia. Eu via a porta se abrir, a luz de fora entrar. Eles não acendiam a luz do quarto, por sorte. Entravam, quatro pés pesados, mas eu sabia que havia outros dois suspensos nos braços de um deles. Nunca havia os visto; sequer sabia se eram humanos, se eram monstros. Não gostaria de descobrir.
Então eu ouvia a voz de um deles.

—Durma com os anjos, filhinho.

E eu sabia, nessa hora, que havia alguém na minha cama. Então eu chorava, chorava sem fazer barulho nenhum. Chorava debaixo da minha própria cama. Chorava no escuro, sozinho, e ficava ali, no chão frio, até que o medo me deixasse dormir.
Às vezes, eu adormecia rápido.
Mas, às vezes, eu ouvia estalos, e começava tudo outra vez.


Conto escrito por Rodolfo Santos, de Taubaté - SP. O conto faz parte de um livreto com 13 contos de terror, chamado 'Lágrimas e Pesadelos'.


Sabine d'Alincourt

23 comentários:

Cinnamon Girl disse...

me lembra o filme "os outros"

Diih Medeiros disse...

O garoto que se escondeu debaixo da cama, quando ele saiu da cama, outro ser tomou o lugar dele? Porque os ''monstros'' foram dar boa noite ao ser que estava deitado na cama e_e

Vinnyr disse...

Plot twist: ele é o monstro e os passos são das pessoas que moram na casa.

Kim disse...

O guri é uma entidade presa a casa e aquele era o quarto dele antes de morrer, com certeza. Sorte dessa família que o guri não parece ser uma entidade maléfica, senão...

RoFolDo disse...

Cinnamon, confesso que me baseei um pouco em 'Os Outros' sim, que por sinal é um excelente filme!

Cinnamon Girl disse...

Com certeza é excelente! E parabéns pelo conto RoFolDo :D

Mayra disse...

Muito bom!

Moon =^.^= disse...

Mania de escrever contos pequenos, pra mim ficou tudo incompleto.... -.-
Legal, mas curto. Vai ter continuação?

Yuri Hirose disse...

"mamãe, tem alguém debaixo da minha cama."

RoFolDo disse...

A ideia do curto é deixar a imaginação fluir, haha. Gosto do terror assim, subjetivo. Quanto menos você entender, mais desconhecido será, e dizem que o maior medo do ser humano é o desconhecido, não? :)

andrea carvalho deca disse...

bem bom.

Andre Rock disse...

Problemas de coluna define tudo. Eu também sinto estalos na hora de me deitar.

wagner disse...

Nao tem nada de incompleto nao. O conto está pronto. No terceiro parágrafo já deu pra sacar a parada, culpa dos "os outros" e "0 sexto sentido" da vida. Mas nada disso desmerece o conto. Só uma dúvida. o protagonista parece não saber da sua condiçao, mas ele solta algumas frases que sugere que eles na real sabe, mas se recusa a admitir. Muito bom.

Rafaella Souza disse...

O que eu entendi: O menino é que é a assombração. Quando ele acha que tem alguma coisa na cama dele, na verdade é outro menino, uma criança carne e osso que mora na casa e dorme na cama toda noite, e quem faz os estralos são os pais do menino, só pra entrar no quarto e dizer boa noite. O fantasma acha que ele é o humano e os outros fantasmas, mas é ao contrário

Cicero Freire disse...

Rodolfo, gostaria de ler este livreto e até de fazer algumas ilustrações de/para ele. Comofaço?! adorei o conto!

RoFolDo disse...

Cicero, deixei outros contos no e-mail do Medo B, mas não sei se eles vão aparecer por aqui. Me dá um toque por e-mail que eu te envio o ebook! Segue o endereço: rs33_33@hotmail.com
Quem se interessar, é só entrar em contato também! :)

Majoris disse...

é mais triste que assustador.. mas achei chatinho :s

Danilo Camargo disse...

olha só, o parça é de Taubaté hauhau

Guilherme Melo disse...

Eu entendi que o autor se baseou no famoso "bicho-papão" que fica embaixo da cama que nos contavam quando éramos crianças. "Quatro pés pesados": Não é um ser com quatro pés e sim duas pessoas! Na verdade, é o "bicho-papão" que tem medo da gente e por isso ele fica embaixo da cama, é lá onde ele se esconde. Genial o conto.

nada disse...

Taubaté representando. ai sim. É uma pena que Monteiro Lobato tivesse uma aversão ao lugar

Bianca Duó disse...

Quando eu era criança, pensava que tinha algum ser monstruoso vindo até a minha casa, imaginava ele fazendo todo o caminho da cidade até chegar na minha casa, e eu tinha que dormir antes dele chegar, e eu dormia (:

Aline Gomes disse...

isso aconteceu bem parecido comigo quando tinha 9 anos.. todas as noites exatamente as 3 da madrugada começavam os passos no meu quarto...

Everton Oliveira disse...

Noooos amei simplismente