26 de junho de 2014

Saia do Meu Quarto - Conto


 

Rua M, 58

Sinopse: Bernardo e Cíntia, um casal morador de Vitória, no Espírito Santo, para Domingos Martins, interior do estado, para visitar uma casa, herança do pai de Cíntia. No caminho eles encontram um bar, onde as pessoas narram histórias trágicas ocorridas naquela casa, a fim de fazer o casal mudar de ideia.

Capítulo 5
SAIA DO MEU QUARTO

– Ei, você – aponta Teodoro para um senhor sentado próximo ao balcão – não é você que conhece a história daquela família que se mudou para há dois anos?
O homem não se mexe. Parece não querer muita conversa. Continua tomando uma cerveja com um pesar de quem não queria estar ali.
– Ah, vamos lá, rapaz! Não vai doer se você contar o que sabe daquele casarão maldito!
– Deixa ele, cara, – Bernardo tenta quebrar o longo e constrangedor silêncio entre os pedidos de Teodoro – deve ser nada interessante.
A insistência de Teodoro ou o pouco caso de Bernardo convence o rapaz:
– O que eu tenho a falar não é interessante, pois ninguém com o mínimo de compaixão pode achar que o desmantelamento de uma família é uma boa história.
Os olhares de Bernardo e Cíntia os provava do contrário. E então ele resolveu contar.

***

Há cerca de dois anos, uma família que vivia naquela casa foi desfeita de forma misteriosa. Uma família perfeita. Pai, mãe e uma filha. Os rostos felizes de Leonardo, sua mulher Melissa e a pequena Carol ainda estavam emoldurados, eternizados no porta-retrato em cima da mesa de trabalho de Melissa.
A mulher que contemplava a foto da família era uma cópia desfigurada pelo choro e pela perda. O contraste era aparente e a taça de vinho ao lado da garrafa quase vazia era necessária para superar e seguir em frente. O período de luto devia passar, ela ainda tinha ainda que uma rocha para quem ficou.
Mas Melissa parecia quer morrido para o mundo. Ignorava tudo e todos, telefonemas e e-mails de parentes e de colegas de trabalhos. Até para as pessoas mais próximas.
– Mãe – disse Carol, chegando sorrateiramente.
Melissa ignorou a filha, de rosto angelical abraçada a um grande urso. Mas a menina insistiu: – Mãe... O papai está lá no meu quarto de novo!
Carol não tinha mais que sete anos, filha única, única sobrinha, única neta... Mimada por todos os lados. Tinha seus desejos atendidos da primeira vez que pedia algo. Mas o estado da sua mãe naqueles dias não a deixava contente.
A menina apertava o urso, descontando toda a frustração de não ser atendida pela querida mãe. Talvez ela tivesse um pouco de medo também, já que o pai dela estava em seu quarto, seu refúgio, seu pequeno castelo cor de rosa. Carol levou o polegar na boca, mastigando o dedo, esperando alguma reação de sua mãe, que soluçava copiosamente.
Ao ver que o quadro não mudaria, Carol bateu o pé, jogando seu urso no chão.
– Mãe, manda o papai sair do meu quarto! Eu quero dormir e ele está lá! Eu quero que ele saia do meu quarto agora!
Melissa se recompôs enxugando os olhos, colocando a foto de pé de volta na mesa de trabalho.
– Desculpa, filhinha. Eu não devia estar chorando assim.
– Tudo bem! Agora dá pra pedir o papai para sair do meu quarto?
Ela ainda acariciou a imagem da família feliz mais uma vez, antes de levantar se escorando nas paredes.
Quando viu Melissa sair pela porta da sala que dá acesso ao corredor, Carol pediu mais um capricho:
– Mãe, faz um chocolate para mim?
Carol, essa menina sempre conseguiu tudo mesmo! Estava lá a Melissa indo para a cozinha fazer o chocolate!
Melissa misturou o chocolate no copo de vidro, fazendo um barulho hipnótico para Carol, que observava com atenção o que a mãe fazia.
Mas o som intermitente feito por Melissa disputou espaço na casa com um gemido gutural. Melissa olhou para o corredor que dava acesso a sala e quartos com espanto. Carol apontou para a mãe com olhos arregalados e preocupados.
– Eu falei que papai tava no meu quarto.
Melissa andou cautelosamente pelo corredor mal iluminado com o copo chocolate nas mãos, seguida por Carol, acompanhada pelo urso que ela arrastava pelo pé, como uma medrosa fila indiana. Os calcanhares descalços de Melissa faziam o contato com o piso do corredor um som seco. Se houvesse um vizinho embaixo da casa, ao invés de um escuro porão, fechado há anos, ele já teria reclamado com a imobiliária.
– Não se preocupa, mãe! É o papai que está no meu quarto. O problema é que ele está daquele jeito de novo e só você consegue tirar ele de lá.
Melissa olhou para trás, assustada. Ela procurou um interruptor, mas percebe que a luz está queimada. Ela já falou tanto para Leonardo trocar a lâmpada, mas nas atuais condições era impossível para ele.
Carol acompanhou a mãe de perto o bastante para vê-la se aproximar da porta do quarto, encostar a cabeça na porta, como se tomasse coragem para enfrentar quem ali se encontrava. Melissa tocou na maçaneta gelada, que transfere todo o seu frio para a espinha da mãe apavorada com a situação que terá que enfrentar. Uma vez a mão na maçaneta, ela respirou fundo e a torceu.
Melissa abriu vagarosamente a porta, temendo o que encontraria por lá. Na medida em que a porta abria um pouco de luminosidade vinda de fora do quarto que escapava para o corredor sem luz, contribuindo para um clima fantasmagórico.
O gemido era facilmente ouvido e reconhecido: Leonardo mesclado às sombras, provocadas pela cortina. Quarto apagado, luz distante do poste da rua, silêncio interrompido ora pelo fungar de um homem perdido ou de um cão latindo na rua.
– Leonardo?
A figura sentada na cama de Carol parecia chorar a décadas. Lágrimas, saliva e urina tomavam o chão. Ele não saia daquele quarto, cada vez mais consumido pela aura do local. Melissa olhava pálida a figura do marido naquele ambiente cheirando a morte.
Ela engoliu a seco e ensaiou um pouco de autoridade.
– Leonardo, saia daí.
– Eu não consigo deixar este lugar, Melissa.
Melissa se aproximou com cuidado. Ela se perguntava se aquela poça formada no chão era real. Mantendo uma distância segura do imprevisível Leonardo. Ela respirou fundo uma, duas vezes. Sua respiração virou quase um soluço descontrolado. Melissa precisava retomar o controle, precisava dizer as palavras certas.
– Mas é preciso, amor. Não tem nada aqui pra você, nem pra mim!
– Até parece que você não se importa! – disse Leonardo de olhos serrados, aumentando a quantidade de lágrimas escorrendo pelo rosto.
Carol não se atreveu a entrar no quarto, encostada na parede ao lado da porta, abraçada com o urso escutando a mãe falar. Melissa, alterada, falou alto, mostrando quem manda ali. Carol se contraiu, pegando as mãos do urso de pelúcia e colocando em seus ouvidos, na esperança de abafar a briga.
Dentro do quarto, Leonardo pareceu ter entendido Melissa. Ele olhou para um urso na cabeceira da cama de Carol, curiosamente parecido com o que a filhinha carregava. Leonardo parecia ignorar o que Melissa diz, se esforçando para conter as lágrimas.
– Não é justo você dizer isso. Eu estou apenas tentando seguir em frente e preciso que você faça o mesmo.
Leonardo olhou para a sua esposa e fez menção a tocar no urso. – Posso?
Melissa consentiu com a cabeça, quase chorando. Leonardo estendeu a mão para pegar o urso na cama. Suas mãos chegaram a ele com uma leveza e graça que parece atravessá-lo.
– Nãããão! Isso está errado! – gritou Carol, do corredor.
Leonardo e Melissa saíram do quarto, passando do lado da menina de olhos vermelhos, que abria as suas mãos em forma de garras, intencionada a acertar alguém.
Leonardo levou do quarto o urso, o abraçando fortemente, enquanto a menina os amaldiçoava com todo o ódio de uma garota mimada que não tinha mais os seus desejos atendidos.
– Eu ainda consigo ver ela abraçada com esse urso. – dizia Leonardo, tentando conter os soluços de seu choro.
– Ela adorava esse urso. Chamava ele de Gimbo, eu acho. Agora, toma seu chocolate.
Carol parou de gritar, ao ver que nunca seria ouvida, voltou para o seu quarto, o lugar onde passou os momentos felizes de sua vida.
Ao andar batendo os pés com raiva, ela fez algo rotineiro de quando ela era contrariada: bater a porta com força.
O som extremamente familiar despertou em Leonardo e Melissa a certeza de que não estavam sozinhos naquela casa.

– Nossa – se espanta Bernardo – e o que aconteceu com a menina?
O homem olha para o copo, como se não se importasse com a história que contara.
– Vagou pela casa tentando ter seus desejos atendidos. Talvez já tenha tomado coragem e seguiu em frente, mas a sua morte prematura pode dificultar muito a pessoa deixar os vivos... viverem. – Conclui o senhor, que ainda carrega a mesma obscuridade no olhar.




Autor: Estevão Ribeiro - Facebook
Esse conto deu origem ao curta "Saia do Meu Quarto"

Bons Pesadelos...

10 comentários:

Mell Xavier disse...

O Estevão Ribeiro sempre arrasando! Adorei

maria luisa purcini disse...

Achei que o Leonardo estava morto, pelo fato de haver saliva e urina (?) no chão, como se ele tivesse uma morte horrível rs. mas não! hehehe. Só faltou caprichar na tradução/escrita.

Julia Neta disse...

Nossa, que tenso... Só queria que o conto falasse de que a menina morreu =/

*☆*Rebecca*☆* disse...

que história ótima!

Vincent Valentine disse...

Conto interessante, mas contem muitos erros, o que dificulta a leitura. Mas no geral eu gostei

Lucas Matos disse...

Otima Historia, achei que o pai fosse o espirito O.O

Łucas Oliveira disse...

po! eu moro pertinho

Fabi disse...

Eu realmente admiro quem consegue escrever esse tipo de conto, no final, todos os que eu tento não fazem sentido, ou talvez, eu não faça sentido... Quem sabe?

Fabi disse...

Eu realmente admiro quem consegue escrever este tipo de conto, todos os que eu tento escrever não fazem sentido, ou talvez eu não faça sentido... Quem sabe?

Estevão Ribeiro disse...

Oi, obrigado a todos que leram e deram as suas opiniões. Não ficou claro no texto, mas isso é um primeiro tratamento de um capítulo de Rua M, 58, meu próximo livro de terror, por isso tantos erros. Eu liberei o texto para o Medo B, mas ele originalmente foi publicado no meu blog Eu Rio Muito para comparar com o curta-metragem no qual trabalhei com André Vianco. Garanto que a experiência será melhor quando o livro estiver pronto!
Abraços, Estevão.